O sonho de ver os lendários Stones ao vivo deveria ser partilhado por todo roqueiro dedicado. No meu caso, era um sonho antigo e um dos mais demorados para chegar a ser executado, pois a banda passou a fazer menos tours nos últimos anos e algumas, como a “50 Years and Counting”, do ano passado, teve ingressos muito difíceis de se conseguir… e bem caros! Nessa nova tour (“14 on Fire”) alguns poucos shows tem tido menos procura e, com isso, é possível comprar ingressos relativamente baratos (na conversão de patacas para reais um assento com ótima vista do palco e som perfeito, dessa vez, ficou na faixa de R$ 350) um ou dois dias depois da abertura das vendas. Geralmente não chegam a durar por mais de 2h os ingressos disponíveis dos veteranos.

A CotaiArena no Venetian Casino de Macau é imponente, confortável, eficiente e de qualidade acústica muito acima da média. Uma venue de gala, como os velhinhos no palco merecem. Aliada ao profissionalismo e excelência dos técnicos de som e ao capricho dos Stones na afinação, nos equipamentos e na produção, essa acústica e som precisos, limpos, cristalinos, no volume perfeito e em uma complexidade de tons e camadas raras de se ouvir, deram certeza de cara de que seria um show especial.

Visualmente simples, o palco tem um imenso telão na parte de trás e uma passarela bem usada por Mick e Keith, fechando um Tongue Pit de fãs intensos, tudo numa iluminação fora de série. O grande destaque aos olhos é mesmo a performance dos magrelos, que têm ritmo e fôlego inacreditáveis para septuagenários. Mick se movimenta muito, quase não para de pé nem mesmo para alcançar algumas notas mais difíceis… corre por todo canto, tem um gestual com as mãos extremamente particular, parece de verdade um garotão exótico além da conta, caricato, mas genuíno e confiante. Chega a ser contagiante e, em pouco tempo, ninguém na Arena está parado. A reação do público é uma catarse barulhenta, todos cantam (todos os hits dos Stones são músicas muito conhecidas, é num lugar desses que você percebe como todo mundo guarda no inconsciente todas essas músicas, que tanto tocaram em rádios, novelas, comerciais, em todo o mundo pop) e a energia compartilhada, a sinergia, são experiências fortes.

A única novidade do show foi “Get Off of My Cloud”, que há tempos não era executada. Repetiu-se a abertura com “Jumpin’ Jack Flash” e a saraivada de clássicos como “Start Me Up”, “Sympathy For The Devil” e “It’s Only Rock N’ Roll (But I Like It)” – sempre em uníssono com o público presente de 16 mil pessoas.

Toda a carreira cinquentenária da banda foi lembrada, com um pouco de ênfase na fase anos 60. Keith Richards cantou sozinho em “Slipping Away”, deixando a impressão de que a presença de Mick Jagger na banda e no rock podem ser predicado um pouco mais importante na herança que os Stones deixarão, um dia, do que o possível guitarrista mais singular da história do rock. Charlie Watts não erra e toca bem, mas sem empolgar… impassível e sem uma gota de suor. Ronnie Wood é um figura, carismático e competente. Tira uma onda em closes no telão com um cigarrinho esfumacento e uma pegada certinha, cadenciada, sem perder a pose. Mas Mick e Keith são malucos, correm muito e se apoderam do palco como gigantes! Bela banda, grande show. Também foi convidado ao palco o ex-guitarrista Mick Taylor para algumas músicas, incluindo “(I Can’t Get No) Satisfaction” e o final, como vem sendo há décadas num show dos Stones, foi apoteótico com o coro da Universidade de Hong Kong encantando na introdução do hino “You Can’t Always Get What You Want” e pelo encerramento com o eterno hit “Satisfaction”. Argumentativamente a mais famosa música do rock’n'roll…

No final e depois, pensando bem, compensa todo e qualquer esforço esse grandioso show! É grande sem ser piegas ou cafona, é muito mais agitado do que eu pensava e diverte de forma extraordinária! Não é preciso sentir falta dos anos 60, do rock trú de outrora, os Stones estão vivos e trazem tudo pra você! Gimme Shelter!

Setlist:

1. Jumpin’ Jack Flash
2. You Got Me Rocking
3. It’s Only Rock N’ Roll (But I Like It)
4. Tumbling Dice
5. Wild Horses
6. Doom And Gloom
7. Get Off Of My Cloud
8. Honky Tonk Women
9. Slipping Away
10. Before They Make Me Run
11. Midnight Rambler
12. Miss You
13. Paint It Black
14. Gimme Shelter
15. Star Me Up
16. Sympathy For The Devil
17. Brown Sugar
18. You Can’t Always Get What You Want [Chung Chi Choir]
19. (I Can’t Get No) Satisfaction

Hildo Junior

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Hoje começou a venda de ingressos para mais uma tour do Metallica no Brasil. Será a sétima viagem da banda ao país e a quarta visita desde o lançamento do último álbum de estúdio Death Magnetic. A novidade desta vez é que os próprios fãs vão poder escolher o repertório dos shows. Chamada Metallica by Request, a tour que passa pela América do Sul em março e pela Europa em junho/julho mostra toda a criatividade do Metallica quando o assunto é setlist. Desde os primórdios da banda, os caras nunca tiveram medo de mexer na estrutura dos shows, tocando covers, promovendo jams, improvisando, trazendo convidados, enfim, fazendo a festa dos fãs.

Na primeira excursão do Metallica ao Brasil, a banda finalizava a tour do álbum And Justice For All e, no último show em São Paulo, tocou um bom trecho de Prowler do Iron Maiden e o habitual cover de Am I Evil do Diamond Head com todos os instrumentos trocados: Lars no vocal, James na bateria, Kirk no baixo e Jason na guitarra. Durante a tour americana do disco preto, a banda disponibilizou uma tapers section, uma parte da arena onde quem quisesse gravar o show poderia plugar seu equipamento direto da mesa de som. Enfim, apenas dois exemplos do caráter amigável do grupo com seus apreciadores. Tanto é que a banda saiu do underground metal para o mainstream com a reputação intacta.

Do meio para o fim dos anos 90, porém, a banda fez algumas péssimas escolhas e acabou marcada principalmente pela batalha contra o Napster e pela mudança de visual. Desta forma, acabou perdendo uma boa parcela da moral anteriormente conquistada com os fãs. A aura de credibilidade que tinha nos anos 80 foi para as cucuias e banda começou a ser vista apenas como uma máquina de fazer dinheiro, vendida aos interesses comerciais da indústria do entretenimento. Mas a partir de meados dos anos 2000, depois da crise mostrada no filme Some Kind Of Monster, o Metallica foi aos poucos reencontrando sua essência, voltando a construir uma relação de respeito e proximidade com os fãs.

Desde a entrada de Robert Trujillo na banda e o bem sucedido rehab de James Hetfield, os caras têm tido excelentes ideias de como tornar seus shows mais interessantes. Na tour de St. Anger, por exemplo, começaram a incluir músicas nunca tocadas antes na história da banda, como a ótima Dyers Eve, a paulada de encerramento de And Justice For All. Em 2006, fizeram uma tour europeia tocando o disco Master Of Puppets na íntegra. Em 2011, depois de 3 anos promovendo o disco Death Magnetic, voltaram pra Europa com a tour Big Four, ao lado de Slayer, Megadeth e Anthrax, com direito a jams com os integrantes de todas as bandas, atraindo a atenção da mídia de todo o mundo e recuperando um pouco da moral com o fãs mais “true” do metal. Para comemorar 30 anos de banda, o Metallica promoveu 4 shows antológicos no Fillmore de São Francisco, com sets espetaculares, cheios de convidados, músicas inéditas e ingressos exclusivos para os membros do seu fã-clube. Os caras foram tão generosos que todos os ex-integrantes da banda compareceram e tocaram. Até Cliff Burton foi representado pelo pai em emocionado discurso aos sortudos que compareceram.

Em 2012, mais shows exclusivos com discos executados na íntegra. O Black Album foi tocado em concorridos shows nos festivais da Europa. Ride The Lightning apareceu durante o Orion Festival, promovido pelo próprio Metallica nos EUA. Rolou até Escape, outra que eles nunca tinham tocado e que James Hetfield já havia falado aos quatro ventos que detesta. Na segunda edição do Orion, ainda neste ano de 2013, foi a vez do clássico pioneiro do thrash metal, Kill Em All. Ele foi executado de surpresa pela banda Deehan, mais um pseudônimo que o Metallica usou em sua carreira para tocar em shows surpresa.

A Metallica by Request 2014 Tour é a grande chance dos fãs conferirem um set diferente, especialmente aqui no Brasil, que não recebe todas as tours da banda. Infelizmente, a boa ideia está se mostrando um tanto decepcionante até agora. Pelo menos nos resultados parciais, os fãs que compraram ingresso não demonstram a mesma imaginação da banda. Em quase todas votações, a maioria das 17 músicas que estão na frente e que farão parte dos repertórios são manjadas pra caramba, no maior estilo “mais do mesmo”. Tudo bem, é normal escolher músicais colossais como Master Of Puppets, Battery ou Creeping Death, mas será que a gente já não viu isso milhares de vezes? Sério que alguém precisa ver Enter Sandman, Seek And Destroy e Nothing Else Matters de novo? É uma lástima que o critério genérico do pessoal esteja prevalecendo até agora, mas quem sabe pelo menos uma ou outra música diferente aparece nos shows.

Este é o set que vou votar assim que receber a senha dos meus ingressos. Aproveite e poste no Facebook e nos comentários quais seriam as suas favoritas.

Phantom Lord
No Remorse
Jump In The Fire
Trapped Under Ice
Escape
The Call Of Ktulu
Disposable Heroes
Leper Messiah
Damage Inc.
Eye Of The Beholder
The Shortest Straw
The Frayed Ends Of Sanity
To LIve Is To Die
Dyers Eve
Holier Than Though
The Struggle Within
The Unforgiven III

Fabian Oliveira

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Em 2013 a música foi, como sempre, uma companheira inseparável. Pra não quebrar a tradição, segue uma singela retrospectiva dos sons que fizeram a cabeça deste que vos escreve nos últimos 12 meses.

Steven Wilson – The Raven That Refused To Sing (And Other Stories)

Revelado ao mundo nos anos 90 como líder do Porcupine Tree, Steven Wilson completou 30 anos de carreira lançando seu melhor disco. The Raven foi composto de um jeito muito peculiar. Ao invés de começar com a parte instrumental, Steven iniciou o projeto escrevendo uma série de diferentes estórias, desenvolvendo tramas e personagens. Só depois criou a trilha sonora para cara um dos roteiros. O resultado é um disco denso e complexo, mas ao mesmo tempo muito bonito e musical, com músicas longas e envolventes que passam num piscar de olhos. Como se não bastasse, os vídeos para as músicas The Raven That Refused To Sing, The Watchmaker e Drive Home também são de chorar de bons. Uma obra prima.

Black Sabbath – 13

13 pode não ser tão colossal como os primeiros 6 LPs do Sabbath (quais discos são?), mas supera até as mais otimistas expectativas. Bem orientado por Rick Rubin, o grupo foi buscar uma vibe parecida com os seus primórdios e saiu do estúdio com um trabalho que faz justiça ao seu glorioso passado. Prova disso é que as músicas novas tem funcionado muito bem junto aos clássicos nos shows. Destaco Live Forever, God Is Dead, Age Of Reason e Dear Father, mas todo mundo tem as suas favoritas neste disco que deve ter sido o mais ouvido em todo o mundo neste ano. Se for realmente o último de estúdio do Sabbath, será uma despedida pra lá de honrosa.

Ghost – Infestissumam

Se no primeiro disco o Ghost mostrava um som firmemente calcado no hard/heavy dos anos 70 e 80 (leia-se Blue Oyster Cult com pitadas de Pentagram e Mercyful Fate), em Infestissumam os caras abriram o leque de influências. Sem medo de arriscar, acrescentaram altas doses de pop, psicodelia, prog, glam e até surf music nas canções. Bem menos pesado que Opus Eponymous, o disco é bom por inteiro, mostrando o talento dos caras para compor hits chicletes como Secular Haze, Year Zero ou Zombie Queen. Outra coisa que adoro no Ghost é que eles estão indo sem vergonha nenhuma em direção ao mainstream, sem mudar o conteúdo claramente satânico das letras, o que significa três coisas: a) eles têm um grande senso de humor b) nunca vão estourar de verdade nos Estados Unidos, o país é puritano demais pra isso e c) logo, as acusações de “armação de gravadora” se tornam absolutamente ingênuas, divertidas até. Longa vida ao Ghost e que venha o terceiro emérito pontificado.

Paul McCartney – New

Não existe ser humano no planeta com tanto talento musical quanto o velho Macca. Incrível, a fonte simplesmente não seca. Em New, aquelas melodias tipicamente McCartneanas convivem pacificamente com o novo, fazendo o disco soar moderno e antigo, contemporâneo e atemporal, tudo ao mesmo tempo. Uma boa sacada foi convidar 4 produtores para trabalhar no disco, todos com estilos e backgrounds diferentes, dando um frescor ao álbum sem perder coesão. Com olhos voltados para o futuro, Paul também toma para si o seu próprio passado, como deixa claro a letra da belíssima Early Days. Termino deixando um recadinho para o Paul, mesmo sabendo que ele nunca vai chegar a seus ouvidos: “Dear Macca, não liga para o pessoal que diz que você está vindo demais ao Brasil. Volta logo tocar essas músicas novas pra gente. Até!”.

Motorhead – Aftershock

Absolutamente nada de novo no front. Aftershock é o mesmo disco que o Motorhead vem lançando todos os anos, apenas com um diferencial: é um dos bons. Desde o 1916 (de 1991), a banda não lançava uma sequência de músicas tão bacanas e empolgantes. A porradaria de End Of Time e Queen Of The Damned, o pianinho de Crying Shame, o bluesão pesado e sacana de Lost Woman Blues, o groove de Death Machine, a divertida Going To Mexico, tudo remete ao melhor Motorhead style rock n roll. Importante também é a performance do batera Mikkey Dee, mais econômico, sem inventar muito, no melhor estilo menos é mais. Sem novidades, mas com bastante inspiração.

Pearl Jam – Lightning Bolt

Com mais de 20 anos de carreira, aconteceu o inevitável. O Pearl Jam finalmente lançou o seu famigerado “disco maduro”, mas a boa notícia é que o álbum é muito bom. Não tem o mesmo pique dos dois anteriores, o bom Avocado e o ótimo Backspacer, mas compensa na classe e na qualidade das composições. Especialmente as baladas Sirens, Swallowed Whole e Yellow Moon, que estão entre as melhores já compostas pela banda. O restante do disco é bem pra cima, alto astral, como mostram as ótimas Lightning Bolt e Let The Records Play. Além disso, o play traz bons momentos folk (Future Days e Sleeping By Myself) e rock (Mind Your Matters e Getaway). Citando o sucesso do QOTSA, Lightning Bolt é o feel good hit of the summer.

Meat Puppets – Rat Farm

Muito do disse a respeito de Lightning Boat, repito para Rat Farm. Disco simples, predominantemente alto astral, mostra a maturidade de Kirk Curtwood como compositor. Com um pé no country e outro no folk, mistura aquele clima do interior dos Estados Unidos com lindas melodias que estamos acostumados a ouvir nas bandas inglesas. Gravado de forma soberba, soa orgânico, como se você estivesse na mesma sala onde o trio está tocando. Enfim, é um trabalho tão forte que uma das suas melhores canções, Original One, uma gema no melhor estilo Neil Young / Tom Petty, está escondida lá no meio para o fim do disco.

David Bowie – The Next Day

Artista que mais ouvi em 2013, é também o cara que descobri de verdade neste ano. Já era fã do Bowie e tal, mas desta vez fiz a lição de casa (quase) completa: ouvi todos os discos dos anos 70 e 80, li a biografia, enfim, deixei só os anos 90 pra 2014 hehe. The Next Day não chega a ser um clássico, mas apresenta boas músicas e uma constatação surpreendente: pela primeira vez, Bowie dá sinais de uma certa nostalgia, um revisionismo da sua própria carreira, sempre com a classe habitual. Bom o suficiente pra figurar entre os melhores do ano.

Charles Bradley – Victim Of Love

Além do Bowie e do Zappa, minha principal descoberta musical do ano foi a soul music. Depois de assistir a alguns documentários muito legais sobre as gravadoras Stax, Sun Records e Motown, dei uma saudável mergulhada na black music americana dos anos 50 e 60. Dos lançamentos do estilo neste ano, dois são imperdíveis. O primeiro é a caixa The Complete Stax / Volt Singles, box que reúne todos os compactos de Otis Redding entre 1959 e 1968. O outro é Victim Of Love, segundo disco de Charles Bradley. Revelado para o mundo da música depois dos 60 anos de idade, dá pra dizer que hoje Bradley é uma espécie de sucessor tardio de Redding. Vale a pena ouvir este disco, assim como a espetacular versão que o figura gravou para Changes do Black Sabbath (lançada apenas em compacto). Se você não conhece a história de Bradley, o filme Soul Of America é também uma ótima pedida.

Avatarium – Avatarium

Black Sabbath dos anos 70, altas doses de Rainbow e Dio, peso setentista contrastando com lindas partes atmosféricas, vocais femininos muito bem encaixados e um nome de banda bem meia boca. Esta é a receita do Avatarium, o novo projeto do baixista e principal compositor do Candlemass, Leif Edling. A ideia original desta banda seria a união de Leif com Mikael Akerfelt, o vocalista / guitarrista / compositor / gênio do Opeth e Storm Corrosion. Por problemas de agenda, Mikael acabou pulando fora e Leif recrutou o guitarrista Marcus Jindell (Evergrey) e a bela Jennie-Ann Smith para os vocais, completando o time com o batera do Tiamat, Lars Skold, e o tecladista Carl Westholme. Já faz tempo que a Suécia é o maior celeiro de rock retrô com tempero moderno e o Avatarium é mais um exemplo bacana de como reciclar / atualizar o som pesado dos anos 70. Um belo disco.

BRASIL

Felizmente, ao contrário de anos anteriores, gostei de vários lançamentos brazucas neste ano. Ó-só:

Esperanza – Esperanza
O Sabonetes já era uma banda legal, mas agora a parada ficou séria. A piazada curitibana cresceu, virou Esperanza e lançou um senhor disco de mesmo nome com ótimas canções, influências que vão desde o indie rock mais moderninho até a psicodelia e a MPB. Massa!

Water Rats – Water Rats EP
Também com raízes curitibanas, o Water Rats lançou um EP de estreia (virtual) muito bom. Punk stoner rock propositadamente tosco, de músicas bem curtas, mais ou menos no estilo do Off!, tocado por ótimos músicos, o que deixa o som da banda bem peculiar. O show é bem divertido também, enfim, recomendadíssimo.

Anjo Gabriel – Lucifer Rising
O primeiro disco dos pernambucanos já era legal pra caramba, mezzo prog mezzo kraut rock. Em Lucifer Rising, a banda acrescentou boas doses de peso e psicodelia, soando um pouco mais hard anos 70. Sem medo de ser feliz, pegaram o filme que já tinha sido musicado por Jimmy Page e fizeram a sua própria versão de trilha sonora em um álbum instrumental de primeira linha. Vale o conferes.

Far From Alaska – Stereochrome EP
Bela surpresa vinda de Natal (RN), o Far From Alaska mistura stoner, indie, White Stripes, anos 70, Helmet, grunge e uma série de outras referências legais. O contraste do peso com os vocais femininos também ajudam a banda a ter um som próprio muito interessante.

Sepultura – The Mediator Between The Head & Hands Must Be The Heart
Pra finalizar, o Sepultura ratifica sua posição como a maior banda brasileira com este disco pesado e dissonante, onde destacam-se os riffs e timbres de Andreas Kisser e as levadas insanas do novo batera Eloy Casagrande. Só falta ao Sepultura-fase-Derrick a capacidade de criar linhas vocais mais variadas e interessantes, além de melhores refrãos. Apesar disso, um disco de inegáveis qualidades.

RELANÇAMENTOS

Cada vez mais, boxes e versões deluxe estão ganhando as prateleiras das nossas lojas reais e virtuais favoritas, disputando cada centavo do nosso rico dinheirinho. É aquela coisa: não compramos mais CDs, mas continuamos adorando livros, posters, vinis 180 gramas e badulaques afins que formam o recheio de tantos relançamentos por aí.

Em 2013, muita coisa boa foi repaginada: o In Utero do Nirvana em versão de 20 anos, a discografia do Clash reunida no box Soundsystem (com direito a uma caixa em formato de boombox), uma versão super deluxe de Tommy do The Who e a já citada caixa do Otis Redding. Mas isso é só a ponta do iceberg: sempre vão inventar novos jeitos pra gente comprar os velhos discos.

Não exatamente um relançamento, mas uma retomada de interesse bacana que rolou neste ano foi protagonizada pelo Badfinger. Culpa da já antológica cena final da série Breaking Bad, com o clássico Baby Blue como trilha sonora. Pena que a maioria dos caras da banda já não estão mais entre nós para curtir este inesperado sucesso.

VÍDEOS

Antes que o streaming domine tudo de uma vez, bandas e gravadoras se apressam pra lançar tudo o que for possível em DVD e Blu-ray. Meu vídeo favorito deste ano ano foi o filme Beware Of Mr. Baker, que conta a impagável história do mestre da bateria, Ginger Baker. Hilário e deprimente ao mesmo tempo, é um documentário imperdível que retrata uma vida absolutamente sui generis.

Muito próximo ficou Soundcity, brilhante documentário de David Grohl sobre o estúdio (e a mesa de som Neve) onde o Nirvana gravou Nevermind. A trilha sonora reunindo vários artistas que gravaram lá é igualmente sensacional. Tem como não ser fã deste cara?

A decepção ficou com o filme do Metallica. Com uma trama totalmente sem pé nem cabeça, Through The Never é uma precária mistura de filme de ação com suspense que não vai a lugar nenhum. É como um videoclipe ou game ruim, que só atrapalha a parte que realmente interessa, que é ver a banda ao vivo no palco. Aliás, pelo menos musilcalmente eles estão muito bem. Teria sido mais jogo e muito mais barato fazer um vídeo 3D ao vivo tradicional mesmo, apenas com o show.

Falando em lançamentos ao vivo, teve muita coisa boa lançada neste ano, principalmente quando o assunto é classic rock: Judas Priest em show no Hammersmith, Europe no Sweden Rock, Def Leppard tocando velharias e o Hysteria inteiro em Las Vegas, Black Sabbath detonando na Austrália, Rolling Stones no Hyde Park, a categoria habitual do Rush com o seu Clockwork Angels Tour, Deep Purple em grande forma promovendo Perfect Strangers, Aerosmith e Whitesnake em shows gravados no Japão, tudo perfeito em HD na sua tela de LCD.

Meu favorito, porém, é Universal, do Anathema. Gravado em um antigo teatro romano na Bulgária, o filme mostra a banda tocando as melhores músicas dos seus últimos dois discos junto a uma orquestra local. Como bônus, um show acústico em Londres. Um pacote completo de uma banda no auge.

SHOWS

Não faltou qualidade nem quantidade neste quesito em 2013. Alguns que gostaria de ver, infelizmente perdi, como Anathema, Steven Wilson, CJ Ramone, Exciter e Off. Por outro lado, conferi Blaze Bayley, Destruction, General Fucking Principle, Water Rats, Paul Dianno, Garage Fuzz, The Hives, Pearl Jam, Accept, Dead Kennedys, UFO, Yes, Rush, Voodoo Six, Iron Maiden, Los Lobos, Neil Young, Vintage Trouble, Uli Jon Roth, Michael Schenker, Suicidal Tendencies, Slayer, Ghost, Avenged Sevenfold, Megadeth, Aerosmith, Whitesnake, Ringo Starr e Sepultura.

Os melhores: The Who (pela carga emotiva do disco Quadrophenia e pelo sonho de ver Pete Townshend e Roger Daltrey de perto e tão longe de casa) e Black Sabbath, simplesmente o melhor show do ano e um dos melhores de toda a minha vida. Um privilégio poder ver Tony Iommi e Geezer Butler novamente, desta vez dividindo o palco com um Ozzy Osbourne em (relativa) boa forma. Que banda, que repertório, que show.

Bóra então pra 2014, com mais música nos falantes pelo mundo afora e, é claro, no fone de ouvido.

Fabian Oliveira

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Querido Papai Noel,

Já faz tempo que não sou mais um menino, mas espero ainda ter o direito de fazer um pedido para o senhor. Sei que nesta época do ano a sua vida não é fácil, mas saiba que não é só na Lapônia que as coisas andam corridas. Antes de mais nada, garanto que me comportei muito bem neste ano, escutei bastante música, fui a vários shows, busquei novidades e sons das antigas, enfim, fiz a lição de casa direitinho. O que eu queria de presente neste Natal é uma coisa bem simples, acho que você e seus ajudantes vão dar conta fácil, fácil. Por favor, não deixe as minhas bandas favoritas lançarem discos natalinos. Tipo, nunca mais. Pode ser?

Veja bem, seu Noel, até o Bob Dylan, que é o Bob Dylan, não conseguiu fazer um disco muito melhor que marromenos nesta data. Outro que lembrei agora foi o Metal God, Rob Halford, que queimou seu filme em um disco absolutamente constrangedor. O Twisted Sister, que é um grupo pra lá de divertido, ficou deprê pra caramba tocando hinos natalinos. E agora foi a vez do Bad Religion, você acredita? Logo eles, uma das bandas prediletas da casa, com mais de 30 anos de letras contestatórias, grandes sons e reputação praticamente intacta. O que será que passou pela cabeça dos caras, nesta altura do campeonato, pra achar que um disco de Natal seria uma boa ideia?

Nesta semana li uma entrevista na qual o guitarrista fundador do Bedão, Mr. Brett Gurewitz, disse que o disco é na verdade uma sátira onde a grande ironia é que a banda toca tudo certinho, sem soar engraçadinha. Faz sentido? Pois é, também acho que não. Escutando o disco, a gente não percebe ironia nenhuma. E olha, pra ser sincero, o disco é bem produzido, bem tocado e “bem cantado”, mas é tão certinho, tão careta, tão sem graça, que faz o Bad Religion soar totalmente inofensivo pela primeira vez em sua longa carreira.

Isso sem falar que é no mínimo esquisito ouvir Greg Graffin, o cara que já cantou “Now we all see, religion is just synthetic flippery” e “We don’t need any more fables”, mandando ver “Glory to the newborn king”, “Praise The Lord” ou “Pa rum pum pum pum”. Aí não tem referência de Ramones, Stiff Little Fingers ou Dead Kennedys que resolva. E o remix de American Jesus? Absolutamente desnecessário. Desculpa o trocadilho, mas parece que os caras perderam o rumo rapidinho depois do ótimo True North.

Então, Senhor Klaus, pelo bem de quem gosta dos bons sons, deixe os plays natalinos para as Mariah Careys e Kenny Gs da vida, OK? E, se não for pedir muito, aproveita para trazer o Greg Hetson de volta para a banda a tempo de tocar na tour brasileira no ano que vem. Sabe como é, o guitarrista que está no lugar dele sempre toca de cachecol e, convenhamos, vai que ele se empolga e vem pra cá com um echarpe natalino. Melhor não correr este risco.

Fabian Oliveira

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O Pearl Jam tem discos difíceis de resenhar. Não é fácil pro avaliador evitar a quantidade de elogios que eles atraem e fazer um texto convidativo e prático, mas vamos tentar. Começando por dizer que, lamento, mas esse não é o melhor disco da banda.

Ainda assim o novo trabalho atingiu o número 1 das paradas da Billboard (e tantas outras pelo mundo) imediatamente no lançamento dia 15/10/2013 e foi o 5o disco da banda a chegar a essa impressionante marca. Meses antes disso, porém, 90% dos quase 30 shows da banda na America do Norte no 2o semestre já estavam sold out apenas com o lançamento de um single.

Isso diz muito não apenas sobre a qualidade do trabalho (e da solidez da carreira dos roqueiros de Seattle) como, também, sobre a qualidade e paixão da extensa base de fãs que converte as oportunidades de seguir a banda por vários shows, comprar bootlegs e participar ativamente do forum do Ten Club em um ritual, uma simbiose, praticamente uma religião!

São 200 mil assinantes pagos no fã-clube que, inclusive, vêm considerando esses mais recentes shows da banda na abertura da nova tour como os melhores já feitos. Dizem que a 2a noite no Brooklyn há poucos dias foi o melhor show dos 23 anos que a banda comemorou neste mês.

Certamente teremos em breve alguns papos sobre os shows da nova tour aqui no Fone de Ouvido (aguarde!!), mas por enquanto concentremo-nos em por que Lightning Bolt é mais um daqueles discos que, mesmo com altas expectativas, valem a espera. E vão ser muito tocados.

Praticamente resumindo musicalmente todos os outros 9 discos de estúdio, o Pearl Jam se renova sem perder absolutamente nada da personalidade neste novo trabalho. De urgência comparável a de Vs vêm, por exemplo, “Getaway” e a atmosfera punk de “Mind Your Manners”, sons que convidam o ouvinte a uma viagem por arranjos que nasceram para execução ao vivo mas que, na versão de estúdio, mostram de cara a veia raivosa e direta dos primórdios dos 3 primeiros discos combinando perfeitamente com a verborragia de guitarras de Mike McCready e a atmosfera mais positiva e amadurecida de Backspacer e do famoso Abacate.

Como sempre, depois da energia fulminante das primeiras faixas, a banda cadencia com a belíssima balada “Sirens”, uma síntese não apenas da carga emocional típica que Eddie Vedder põe nas letras e interpretações como, ainda, das raízes classic rock e aquele clamor 90s meio-retrô, meio-moderno, que sempre serviram de inspiração para os caras: pode-se ouvir guitarras escapadas de Slash em November Rain, refrões grudentos direto do The Who e viagens empolgantes como as do Pink Floyd, por exemplo, mas tudo isso com a cara do Pearl Jam. Sensacional para quem bebeu nas mesmas fontes, muito positivo para quem começa agora a explorar mais as mesmas inspirações.

A partir desse cenário vem a série de músicas que, ao que parece, mostram a evolução filosófica e poética de Eddie Vedder, evidentemente numa fase existencialista (sem precedentes no rock moderno) ferrenha desde o Abacate. Se Inside Job, The Fixer, Just Breathe e Unthought Known flertavam com o tema numa mensagem clara de compromisso tanto social (Camus) como com o próprio indivíduo em estabelecer ou descobrir seus limites (Nietzsche e Kierkegaard), a série de maravilhosas músicas em volta de Infallible (exemplo que na verdade é muito constante no Pearl Jam de qualidade incomum de letra e música em conjunto) e Pendulum (com uma percussão marcante ecoando sobre um jogo de guitarras com a sonoridade de anjos e que tem sido “opener” da maioria dos shows) soma ao existencialismo um tanto de nova era e filosofias orientais que convidam o ouvinte a viver como se só houvesse efetivamente o aqui e o agora, porque tudo é falível e finito. Inegavelmente um tema interessante e estimulante!

E o discão ainda finaliza com influencias blues e 60s se encontrando com Neil Young (outra influência frequente) na empolgante “Let The Records Play” e 3 baladas intimistas daquelas que as amantes de Eddie Vedder adoram mais que tudo. Não tenho muito mais o que falar sobre elas e esses temas tristes ou melados demais que também sempre marcaram presença em todos os discos da banda. Nada de diferente nessa parte final do disco, portanto.

No que se refere à qualidade técnica, à música e ao instrumental é um disco coeso e bem produzido por Brendan O’Brien, que mais uma vez mostra uma banda no auge com seu toque pesado no mid-tempo, cheio de groove e com uma execução irritante de precisa (nem tanto!) em que tudo sempre funciona. Obra de perfeito “songwriting”, sem dúvida, e de química perfeita entre excelentes músicos.

E ainda é claro que é um disco versátil, que alterna momentos e de certa forma estabelece uma linearidade boa de segurança e liberdade pela audição inteira, com começo, meio e fim, como não é comum de ver no rock. É uma obra completa e com faixas interconectadas entre si, um filho que nasceu do maior hiato sem discos do Pearl Jam até hoje, coincidentemente nas fases mais estáveis e tranquilas das suas vidas – e, por que não dizer, refletindo igualmente a provável fase mais estável e tranquila dos seus seguidores mais frequentes, que se aproximam da mesma faixa etária da banda.

Essa habilidade fantástica do Pearl Jam de evoluir no que diz e no modo como toca, combinada com habilidade instrumental de TODOS os membros da banda em nível muito acima do ótimo, e um frontman íntegro e respeitoso com os fãs, é a marca da eficiência do Pearl Jam e chave da sua longevidade.

Confesso me admirar que uma impressão assim tão boa ainda não seja suficiente para elevar Lightning Bolt ao Top3 dos melhores discos do Pearl Jam, mas se existe uma banda que oferece esse tipo de dilema, é a própria.

E pra terminar sem concluir, dada a extensão dessa resenha, apenas lembro que nada disse ainda sobre Swallowed Whole, que merece uma outra resenha exclusiva. É candidata a best rock song ever e vai ter sua defesa em tópico separado, em breve!

Hildo Junior

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Isso certamente passa pela cabeça de Paula Lavigne e dos artistas representados por ela no mesmo ritmo que as quantias de royalties recebidas por eles diminuíram na última década. No caso da empresária, deve ser ainda mais preocupante já que ela, em tese, fica com apenas parte daquilo que seus clientes recebem – ou recebiam. O mp3 acabou aos poucos com os “formatos físicos”, e hoje ninguém mais é obrigado a comprar o disco para ouvir as músicas. Aquela que era a principal fonte de renda dos artistas secou – é verdade que figuras como Lobão sempre disseram que o dinheiro vinha mesmo dos shows, eis que as gravadoras roubavam tudo para elas, e talvez as coisas no Brasil fossem um pouco menos organizadas e transparentes do que em outros lugares. Tim Maia era outro que se queixava.

Seja como for, é interessante notar como em alguns gêneros musicais as coisas mudaram – aliás, para benefício dos fãs. Quem achava que veria o Black Sabbath praticamente original reunido, sendo que claramente nenhum deles – talvez o Geezer – tem condições para isso? Quem achou que teria tantas chances de ver o Iron Maiden ao vivo? Ou, ainda, tantas e tantas bandas sendo reativadas, fazendo shows comemorativos de seus discos mais importantes etc? É ótimo para quem gosta de rock e metal ter tanta chances de ver suas bandas favoritas ao vivo. Mas o que será que as bandas e seus integrantes pensam?

Todas essas pessoas pensavam que, com 50 ou 55 anos, estariam aposentadas, vivendo dos rendimentos de enormes pilhas de dinheiro que se acumulavam todo mês, resultado da venda de milhões e milhões de discos, direitos autorais pela execução em rádio e TV etc. Poderiam cultivar seus hobbies em paz, viver sem preocupações e, além disso, manter o padrão de vida nababesco de rockstars. Veja a casa onde morava o vocalista do Metallica, por exemplo, e imagine apenas o custo de manter a grama aparada. Veja, também, aquele programa “Cribs” da MTV americana e, enfim, #procuresaber algumas histórias folclóricas que flutuam por aí sobre gastos ridiculamente altos que artistas populares podem se dar o luxo de fazer.

Imagine o mau humor de algumas dessas pessoas quando perceberam que teriam que trabalhar até o fim da vida, como um blue collar qualquer? Pois é exatamente o que está acontecendo, e há muito choro e ranger de dentes. No campo do rock pesado arrisco dizer que um pouco menos – há reclamações mais ou menos frequentes sobre o impacto da distribuição digital descontrolada sobre o negócio da música, mas as bandas seguem fazendo extensas tours e voltando com freqüência ao Brasil, sempre com bastante profissionalismo e aparentando gostar do que estão fazendo.

Efeito similar certamente é sentido por Paula Lavigne e sua turma. Aliás e como já se disse, especialmente por ela, já que, além de fazer barracos e ser rude (como, reza a lenda, todo bom produtor deve fazer), ela é que cuida do dinheiro do Caetano e atua num negócio cuja principal mudança foi a pulverização das fontes de dinheiro de seus clientes.

Primeiro mexeram no ECAD, que até outro dia era suficiente para ”arrecadar” (qualquer um sabe que isso é uma piada) direitos autorais. A taxa de administração cobrada pela autarquia foi diminuída, além de outras alterações que fazem sobrar mais dinheiro para o artista. Fazia bastante tempo que o ECAD era problemático, um verdadeiro ralo de dinheiro sem nenhuma fiscalização – mas foi uma CPI que propôs a criação de uma nova lei para reestruturar o órgão e parar com a roubalheira. Paralelamente, tramitou uma proposta de emenda constitucional para isentar de impostos CD’s e DVD’s de artistas brasileiros (e também músicas compradas online). A “PEC da música” foi aprovada; o projeto de lei de reestruturação do ECAD ainda não.

Ambas as iniciativas foram encampadas pelo “#Procuresaber” de Paula Lavigne, e, na esteira do sucesso das mudanças, também passou a se discutir sobre biografias. O grupo liderado pela ex-mulher de Caetano é contrário à publicação desautorizada de biografias para serem vendidas – e usa como principal fundamento o art. 20 do Código Civil, o qual dispõe o seguinte:

“Art. 20. Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais”.

O comando poderia ser redigido com mais clareza, é verdade. Afinal, alguém sempre poderia dizer que “a exposição ou utilização da imagem” tem um sentido mais estrito (como o direito de imagem do jogador de futebol) do que a interpretação corrente. Isso sem falar da segunda parte do artigo, que condiciona a proibição à violação da “honra, boa fama ou a respeitabilidade” do sujeito e a destinação a “fins comerciais”. 

As coisas não são tão simples quanto podem parecer. O que seriam “fins comerciais”? Depende.

Pelé disse que jamais associaria seu nome ao de uma bebida alcoólica e, no entanto, todos conhecemos a gloriosa Caninha Pelé. A cachaça comprou do Pelé o direto de estampar seu rosto no rótulo e batizar o produto com o seu nome. Quantas pessoas compraram a cachaça só por causa disso? É impossível saber. Certamente gente que gosta de cachaça mas não de futebol deve ter comprado – entre outras tantas hipóteses. Em suma, é difícil mensurar se foi ou não um bom negócio para a fábrica, mas provavelmente sim.

E biografias, não seriam como cachaças com rostos famosos no rótulo? Não vendem apenas por que se trata – justamente – de alguém conhecido, sobre o qual o público tem curiosidade?

É aí que a questão começa a ficar tortuosa. Em parte, a resposta é afirmativa. Aliás, falando em “cachaça” e em “futebol”, um excelente exemplo é a biografia de Garricha escrita por Ruy Castro. Quem comprou o livro, comprou porque admira Garrincha, certamente. Mas não só: quem conhece (e gosta, é claro) do texto de Ruy Castro certamente também comprou o livro por isso. E isso porque não se trata de uma narrativa apenas da vida privada do anjo de pernas tortas, mas de todo o seu contexto, de sua vizinhança, de suas origens. Uma boa biografia jamais será totalmente ocupada do biografado – aliás, nas melhores delas o equilíbrio entre, digamos, “o pessoal e o profissional” impera.

É o que acontece em outra excelente biografia escrita por Ruy, a de Carmem Miranda. Ao mesmo tempo em que a vida pessoal de Carmem é descrita, as indústrias musicais e de entretenimento brasileira e americana também são – em profundo detalhe, com uma preciosa discografia indicada por Castro e abundância de fontes e material que diz respeito ao período histórico em que a biografada viveu.

A biografia de Casimiro Montenegro, escrita por Fernando Moraes, é outro exemplo interessante: é muito mais a história do ITA e do surgimento da engenharia aeronáutica no Brasil do que da vida pessoal de Montenegro.

A questão está aí: uma biografia só será digna de interesse quando a vida do biografado se entrelaçar, de alguma forma, com a história. O argumento segundo o qual a privacidade deve ser protegida a qualquer custo é bastante pedestre, na exata medida em que quem o utiliza sempre parte de uma premissa como “e se resolvessem biografar sua mãe?” É uma variante das discussões sobre segurança pública em que alguém defende a morte de bandidos, outro alguém diz que não é bem assim e o primeiro retruca “é porque não foi com você ou com algum familiar”.

Bem, diferente do que acontece com assaltos e latrocínios, ninguém está sujeito a ser “aleatoriamente” biografado – graças, justamente, ao funcionamento do mercado editorial. Se não há potencial para o livro se pagar, ele não será lançado – da mesma forma que acontecia, antes, nas gravadoras: nenhuma delas investia naquilo que achava que não tinha potencial para primeiro se pagar e, depois, dar lucro. Caetanos, Gils e Robertos vivem da margem de lucro sobre o ingresso de seus shows, e ninguém põe reparo nisso. Eles fazem o show; recebem por isso. Um show precisa se pagar (local, equipamento, transporte, iluminação etc.); o músico precisa comer, o artista precisa manter seu padrão de vida. Ou alguém acha que o Roberto Carlos recebe o mesmo que o baterista da banda dele a cada show?

É claro que não. Por menos de centenas de milhares de reais ele sequer sai de casa. E é porque ele é uma pessoa tão pública, mas tão pública, que não se pode dar ao luxo de sair de casa pra tomar um café na esquina – é um jeito de viver. Foi a vida que ele escolheu. É o preço que ele pagou. E é por isso que ele pode navegar no Lady Laura. Se ele quisesse ser um funcionário público anônimo, ele também poderia, mas viveria com um salário de funcionário público, e anônimo.

Mas não é só o dinheiro. Também há pessoas riquíssimas mas anônimas, e cujas biografias não teriam interesse literário e muito menos mercadológico.

Então, como resolver o problema? A intimidade de artistas como Caetano e Lenine vale “menos” do que a de uma pessoa anônima?    

Talvez a questão pudesse ser resolvida, de um ponto de vista mais moral, mediante o seguinte silogismo: quem escolhe viver tão publicamente sacrifica (uma modalidade de renúncia tácita, talvez?) um pouco de sua intimidade em troca dos lauréis mais elevados que a sociedade confere a seus integrantes.

De um ponto de vista mais, er, “jurídico”, é aquela velha hipótese de colisão: de um lado, o direito do biografado a ter sua vida privada a salvo dos curiosos; de outro, o direito à informação, considerando que ele surge quando o biografado possui notoriedade suficiente para justificar o interesse. Eu não poderia dizer melhor do que o juiz que não deu a liminar par ao João Gilberto contra a Cosac Naify (a decisão está contida em outra, aqui). E, na boa, o raciocínio destrói qualquer defesa do possível do #Procuresaber.

Queiram ou não queiram, Caetanos, Gils e Robertos transcenderam a história de vida exclusivamente pessoal, de “intimidade”, e são parte da história do Brasil. Impedir que essa história seja contada é, sim, censura. Eventuais exageros e incorreções podem ser corrigidos e punidos, exatamente de acordo com o devido processo legal – aliás, nos termos de parte do art. 20 do CC. Todo o aparato para que mentiras sejam punidas já existe. Qual é, então, o problema?

Voltamos ao começo: o problema é dinheiro. Livros são caros, tem potencial de vender bastante – eles querem receber, afinal, entendem que a biografia só vende por causa do biografado: e isso pode ser verdade quando se trata de coisas bisonhas como “biografias” de Justin Bieber – quase a mesma coisa que um caderno Tilibra com ele na capa, ou uma lancheira. Ninguém comprou uma biografia dessas por causa da sua qualidade ou da notoriedade de quem a escreveu (e onde se lê “ninguém”, me refiro a adolescentes histéricas que aprenderam a ler há pouco). E, ainda assim, é óbvio que Justin Bieber tem alguma relevância – ainda que seja de pouca duração e mais ligada às estatísticas do que à relevância musical e cultural.

Em suma, o argumento segundo o qual o art. 20 do CC impede o “estouro da boiada”, e que sua mãe seja biografada mesmo que não queira, é totalmente furado – tanto quanto os argumentos de Paula Lavigne e as infelizes colocações feitas recentemente por ela e pelo resto da turma.

Thiago Pacheco

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De arrepiar!

É o mínimo que se pode dizer do show histórico que Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Tommy Clufetos fizeram no estacionamento da FIERGS em plena quarta a noite na capital do Rio Grande do Sul.

Apesar de o acesso ter sido complicado até o local do show, com trânsito bem lento e um pouco de preocupação para quem deixou pra ir em cima da hora, uma vez lá dentro tudo correu perfeitamente. Um belo exemplo de organização, profissionalismo e qualidade de som e estrutura, sem dúvida, inclusive com banheiros limpos e sem fila e boa oferta de bares e ambulantes para fornecer as Budweisers que já vêm há algum tempo anunciando que, de fato, great shows are coming pra esse Brasilzão.

A abertura do Megadeth foi bem escolhida e se mostrou muito adequada ao evento. O público apreciou e se empolgou bastante não apenas com o material mais recente de Supercollider como também cantou em coro os grandes clássicos Peace Sells, Symphony of Destruction e Sweating Bullets, dentre outras belas execuções. Dave Mustaine, simpático e carismático como sempre, é um frontman de elegância impar e sempre vale o ingresso!

15 minutos antes do horário marcado, porém, já se ouvia o Véio Ozzy chamando a galera para o ritual que iria começar. Com certa surpresa, portanto, começava adiantado o primeiro show em terras brasileiras desde a reunião aguardada por 30 anos da lendária banda que inventou o riff pesado e, com ele, deu origem ao Heavy Metal.

O poder do Black Sabbath dispensa comentários, mas nem por isso deixemos de citar que o domínio que Ozzy tem sobre a multidão, que parece hipnotizada pelo cara, parece o de um jovem de 30 anos mas com experiência de 70. Cada grito, cada “I can’t fucking hear you!” lançado pelo velhinho era seguido de notável louvor. Embora sua voz ao vivo nunca tenha (segundo dizem) alcançado a perfeição das gravações, ele cantou bem melhor e com mais firmeza e afinação do que no ano passado nas tours pela Europa e EUA. Parece estar rejuvenescendo o marido de Sharon, provando que adrenalina e a energia de palco continuam sendo um dos melhores elixires da vida no mundo moderno.

Se no começo da reunião da banda, no entanto, Ozzy era mais serelepe e corria muito pelo palco, agora parece se contentar em lançar as mãos para o ceu e estimular o público sem se movimentar muito, o que parece ter sido uma boa decisão com sua avançada idade.

Tony Iommi, o pai da guitarra pesada e godfather dos riffs mais poderosos do rock, não parece que acabou de vencer a leucemia, ao contrário, parece tocar com a tranquilidade e segurança de um homem no ápice da sua vida. O baixista Geezer Butler ainda é capaz de invocar o inferno com suas linhas de baixo ora sujas, ora apenas pesadonas, mas agora está muito bem acompanhado pelo baterista que, há um ano, parecia muito menor do que o tamanho do Black Sabbath exigia. Hoje Clufetos já se solta bem mais, toca com precisão e pegada dignas de nota e não deixa ninguém sentir saudade de Bill Ward, o baterista original que acabou sendo rejeitado por Ozzy nessa reunião, ao que se sabe, por exigir mais dinheiro do que os deuses Ozzy e Tony gostariam de dar no compartilhamento.

A única razão para alguem eventualmente reclamar da ausência de Bill e da presença de Clufetos, agora, é birra mesmo… até porque no visual e no jeitão ele é uma referência clássica aos anos 70 e desce a lenha exemplarmente!

Os primeiros acordes de Iron Man derrubam toda e qualquer resistência dos presentes e colocam a multidão em transe, enquanto clássicos como Iron Man permeados pelas maravilhosas novas canções God Is Dead? e End of The Beginning devoram o cérebro e convertem qualquer homem em um seguidor do sabá negro com indiscutível prazer. O final apoteotico com Paranoid, por sua vez, talvez tenha sido o maior pula-pula que Porto Alegre já viu, tamanha a alegria e doação daquele público que, ao final do show, podia certamente ver tudo de novo sem descanso. Noites épicas são assim mesmo.

Sem inventar, sem buscar surpreender ninguém, mas executado com imensa perfeição exatamente a tradição e história que os 30 mil presentes desejavam ver, o Black Sabbath fez um show candidatíssimo a melhor do ano no Brasil em Porto Alegre. Memorável! Sorte de quem ainda terá a chance de respirar o sabá sensacional que os velhinhos trazem ao Brasil nessa tour.

Hildo Junior

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É hoje, pessoal: Ramones Day, no Vox, com Magaivers, convidados, DJs Slash e Mauricião, cerveja artesanal Cretin Hop, memorabília ramônica, merchandising exclusivo com direito a camisetas, moletons, canecas, além de muita diversão. Aparece lá e, antes, leia um pouco sobre o bom gigante Joey Ramone.

JOEY – THE EARLY YEARS

Jeffrey Ross Hyman (Aka Joey Ramone) nasceu em New York no dia 19 de maio de 1951. O que era pra ser um momento de suprema felicidade logo se tornou preocupante. O bebê nasceu com teratoma sacrococccígeo. Uma massa tumoral (que seria um segundo feto que não se desenvolveu) presa à sua coluna. Dias depois o pequeno Jeff foi submetido a uma complicada cirurgia para a remoção do tumor. O procedimento foi um sucesso mas as sequelas só seriam conhecidas com o passar do tempo (espinha bífida, dor crônica e problemas posturais). A eterna e gigantesca cicatriz nas costas fazia Joey lembrar que a vida poderia ser muito dificil em muitos momentos.

Jeff teve uma infância normal até os oito anos. Porém a aparência física começou a comprometer seriamente seu comportamento social. Era um pequeno gigante com pernas enormes, postura desajeitada e óculos “fundo de garrafa”. Um desengonçado nos esportes que após a separação de seus pais começou a se apaixonar pelo rock and roll aos 11 anos de idade. Seu amor pela música aumentava e na mesma proporção sua auto estima diminuia. Jeff entrou na adolescência sendo o esquisitão de poucos amigos. Vítima de bullying e piadas de mau gosto direcionava a atenção para o seu mundo interno de impressões, emoções e pensamentos. O rock and roll era o refúgio perfeito para a personalidade introvertida de Jeff.

Em 1964 Charlotte (mãe de Jeff) presenteou Mitchel (irmão 3 anos mais novo) com uma guitarra. Os professores tinham sugerido um hobby para o mais novo e Charlotte resolveu incentivar a paixão musical de seus filhos. Aos 13/14 anos Jeff comprou uma bateria, porém, 1965 ficou marcado como o ano que seu padrasto morreu num acidente de carro. Além de perder seu “segundo” pai, também se distanciou dos dois filhos do padrasto, que Jeff tinha como irmãos.

A primeira bandinha que o novato baterista Jeff (aka Joey Ramone) teve se chamava Intruders. Isso foi em 1967, ano que Jeff começou a se comportar de maneira ainda mais estranha. Deu-se o início de seu Transtorno Obsessivo Compulsivo. Suas perturbações se agravaram e evoluiram rapidamente pois Jeff com 16 anos começou a fumar maconha e a ingerir algumas pílulas. Ainda em 67 assistiu pela primeira vez um show de sua banda favorita na época: The Who. No ano seguinte continuou tocando bateria em pequenas bandas chamadas Hudson Tube e 1812.

JOEY – THE 90s

Decidido a viver com dignidade Joey abandonou as drogas e o álcool. Um fluxo intenso de criatividade soprava novamente em volta do vocalista.

Joey começou a promover festas, discotecar em bares, aparecer em programas de Tv.

Junto com Handsome Dick Manitoba (dos Dictators) apresentava o programa Joey Ramone´s Radio Revenge.

Em 1990 começou sua luta por causas políticas. Conduzia painéis de discussão sobre censura, aids, ecologia, direitos animais e desemprego.

O próximo álbum (Mondo Bizarro) seria definitivamente um disco de Joey Ramone. Compôs 7 das 13 faixas. Estava há dois anos longe das drogas. Se alimentava bem, nadava nas piscinas dos hotéis e nas horas vagas mergulhava na medicina holística, na homeopatia, na quiropatia e até mesmo no yoga.

Foram os dias mais felizes de sua vida… principalmente quando passava tardes junto com Raven, filha de Angela Galetto. Agora, a antiga namorada era a melhor amiga. E Joey amava e cuidava de Raven como se fosse sua própria filha.

Dudu Munhoz

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Ainda no clima de esquenta para a festa de amanhã, saiba mais sobre a cozinha original dos Ramones: os mestres Dee Dee e Tommy Ramone.

DEE DEE RAMONE

Filho de pai estado-unidense e mãe alemã Douglas Colvin (aka Dee Dee) nasceu nos Estados Unidos mas morou na Alemanha (principalmente Berlin) até os 14 anos de idade. Teve uma infância terrível. Teve contato com drogas pesadas. Roubou. Presenciou violência entre seus pais. Colecionava memorabilia do terceiro reich como capacetes, baionetas, projéteis e máscaras de gás. Em Forest Hills chegou em 1966 com mãe e irmã. Na vizinhança fez amizade com Joey. Ambos gostavam muito de Stooges e de tomar cerveja. No trabalho conversava muito com Johnny e a ideia de criar uma banda finalmente aconteceu. Compôs a primeira música dos Ramones: I Don´t Wanna Walk Around With You. O camaleão bipolar foi o principal compositor da banda. No final de 1977 conheceu Vera no bar Max´s Kansas City. Foi amor à primeira vista! Antes, porém, Dee Dee embarcou para o Reino Unido para fazer 11 shows com os Ramones. Os dois últimos concertos desta turnê renderam o álbum ao vivo It´s Alive. Dee Dee estava inspiradíssimo… sabia que ao voltar à NYC começaria o namoro com a mulher de sua vida! Vera e Dee Dee se casaram nove meses depois, no mês de setembro do ano de 1978.

TOMMY RAMONE

Emblemática a posição bem à frente do pequeno baterista Tommy nessa foto que ilustra a capa do segundo álbum dos Ramones. O baterista foi o produtor além de co-autor de várias músicas deste disco gravado em outubro de 1976 mas lançado em janeiro de 1977. Tommy era mais que um simples baterista. Ele era o intelecto e porta-voz da banda. Produziu Leave Home, Rocket To Russia, Road To Ruin e Too Tough To Die. Criou o Ramones Sound. “He was the glue of the Ramones”. A hierarquia da banda nessa época era: em primeiro Johnny, em segundo Tommy, em terceiro Dee Dee e por último Joey. Ao longo da interessantíssima história dos Ramones podemos dizer que Johnny foi o cérebro da banda, Tommy foi o intelecto, Dee Dee, a alma e Joey, o coração.

Tommy e Johnny tiveram uma banda chamada Tangerine Puppets no meio dos anos 60. Johnny era o baixista e Tommy o guitarrista. Era a banda local mais popular entre os adolescentes de Forest Hills. Nessa época Tommy deu algumas aulas de guitarra pra Mickey, irmão mais novo de Joey. Depois Tommy se dedicou a produção em estúdio tendo inclusive trabalhado com Jimi Hendrix no álbum Band Of Gypsys. Em 1970 Tommy foi vocalista de uma banda que tinha Johnny como baixista e Mickey como guitarrista. Juntamente com Monte Melnick (futuro manager dos Ramones) Tommy montou um estúdio de ensaios e gravações, o Performance Studios. Lá ensaiavam a turma do New York Dolls e um grupelho chamado Angel And The Snake que depois mudou seu nome para Blondie. Tommy passou dois anos encorajando Johnny a formar uma banda. Até que em janeiro de 1974 Johnny comprou uma guitarra, Dee Dee um contra-baixo. A dupla convidou Jeff Hyman (aka Joey) para tocar bateria e assim começava a nascer uma banda que mudaria a história do rock´n´roll.

Antes de ser um integrante Tommy era um conselheiro e incentivador dos Ramones. Tommy convenceu um cético Johnny que Joey seria o vocalista perfeito para a banda. Na procura de alguém que assumisse as baquetas Tommy sentava na bateria e mostrava como deviam ser tocadas aquelas primeiras músicas dos Ramones. Nenhum baterista foi tão preciso quanto aquele baixinho húngaro de um metro e meio chamado Tamás Erdélyi. Tocando de um jeito todo seu (timekeeper), Tommy era um guitarrista se aventurando na bateria pela primeira vez. E “deu liga” pois Tommy sabia exatamente como a banda deveria soar. O estilo de Tommy (que ninguém tinha escutado antes) era perfeito pois era muito simples e limpo. Era o oposto das guitarras, sujas e pesadas. Como dizem por aí: a boa arte é a combinação dos opostos.

Dudu Munhoz

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Continuando o aquecimento para o Ramones Day em Curitiba, hoje publicamos algumas curiosidades ramônicas. E já que estamos falando em fatos pitorescos, chegue cedo na festa e adquira sua Cretin Hop, uma cerveja artesanal exclusiva do evento que foi preparada pela rapaziada da Cervejaria Fortuna e que conta com um rótulo especial desenvolvido pelo ilustrador, diretor de arte e vocalista dos Chernobillies, G-lerm Rubini.

CURIOSIDADES RAMÔNICAS

- Logo no início do namoro de Joey e Linda, Joey deu uma pisada na bola. Tentou conquistar uma namorada de um amigo dele (um cara da ramones crew) e não obteve sucesso. Linda perdoou Joey na época. Essa breve história explica muita coisa. Como o fato de Joey perdoar Linda e manter contato mesmo depois de ela começar namorar Johnny.

- Marky tem um irmão gêmeo.

- Dee Dee não tocou baixo nos discos Brain Drain e Halfway To Sanity e sim Daniel Rey.

- Alguns anos após o fim dos Ramones, os integrantes do Metallica convidaram duas vezes C.Jay para ser o baixista da banda. C.Jay achou melhor se dedicar aos cuidados de seu filho Liam que tem autismo.

- C. Jay foi quem teve a ideia de gravar I Don´t Wanna Grow Up mas foi Joey quem apresentou
a ideia para Johnny… Joey achava que assim, a música teria mais chance de entrar no último disco.

- Público pagante em alguns shows:

31 de dezembro de 1977, gravação do It´s Alive: 2.962. Sold out
01 de janeiro de 1978, segundo dia de gravação do Its Alive: 2.800.

1996 – São Paulo – Olimpia:
11 de março: 3.700.
12 março: 3.914.
13 março: 4.513. Sold out.

16 de março de 1996, Buenos Aires: 43 mil pessoas.

Dudu Munhoz

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Nesta quinta-feira, 12 de setembro, acontece em Curitiba uma das festas mais bacanas do ano: a terceira edição do Ramones Day. Mais do que um show, uma noite de diversão para celebrar a história da melhor banda de punk rock de todos os tempos. Quem aparecer no Vox a partir das 21 horas vai poder conferir Magaivers e convidados tocando músicas de todos os discos do Ramones, além dos DJs Slash e Mauricião, merchandising exclusivo, exposição de discos, raridades e memorabília ramônica.

Em homenagem a esta excelente iniciativa, o Fone de Ouvido publica de hoje até o dia da festa algumas curiosidades sobre os Ramones. Curta aí e apareça lá.

PINHEAD

Após os Ramones assistirem Freaks (filme de 1932) Dee Dee compôs a música Pinhead em 1976. A música fecha o lado A do segundo disco da banda (Leave Home). Um trecho da letra (Gabba Gabba, we accept you, we accept you, one of us) convidava todos os freaks, outsiders e fãs a serem um “ramone” também. Em todos os shows a partir de 1977 uma placa com os dizeres “Gabba Gabba Hey” era empunhada por Joey no final da música. Uma máscara do Pinhead foi confeccionada para o filme Rock´n´Roll High School. No dia 28 de dezembro de 1978 os Ramones tinham uma apresentação diurna ao ar livre em San Francisco. O iluminador da banda Arturo Vega não tinha o que fazer durante o show e resolveu vestir a máscara na hora de entregar a placa para Joey. Estava inaugurado um dos momentos mais clássicos dos shows dos Ramones. Em 1980 o roadie Bubbles resolveu incrementar a personagem e o Pinhead ganhou roupa colorida e uma dança apropriada (The Jerk Dance). Geralmente um roadie de bateria é quem tinha que incorporar a personagem. Mas em alguns concertos, membros de outras bandas resolviam se transformar. João Gordo, Lars (Rancid) e Eddie Vedder foram Pinhead algumas vezes. Atualmente a placa original com o escrito “Gabba Gabba Hey” está exposta no Hard Rock Hotel de Las Vegas.

END OF THE CENTURY

Esta foto da capa do quinto álbum dizia muito sobre o momento do quarteto. Tensão e cisão na banda. Johnny queria que todos os discos dos Ramones fossem igual aos três primeiros. Dee Dee e principalmente Joey queriam explorar novas sonoridades. Com produção do famoso produtor Phil Spector os Ramones tentavam emplacar um sucesso radiofônico. Também querendo parecer mais pop Joey e Dee Dee votaram para que a banda tirasse as jaquetas de couro na foto do álbum. Johnny foi voto vencido. Marky votou com Johnny, mas como não era membro original, seu voto teve um peso menor. O “dono” da banda (Johnny) sentia que sua autoridade estava sendo enfrentada pelos dois principais e geniais compositores. No seu auge criativo Joey tentava ser ouvido e respeitado. O vocalista dizia que a terceira música deste disco (Danny Says) era a sua música favorita de todos os tempos.

1,2,3,4

No início dos Ramones a música que quase sempre abria os shows era Loudmouth. Depois passou a ser Rockaway Beach e em alguns shows Blitzkrieg Bop. Por uns bons cinco anos Do You Remember Rock´n´Roll Radio? foi o tema de abertura até que a banda compôs uma mini música instrumental chamada Durango 95 em 1983. Durango mais Lobotomy abriu a maioria dos shows dos anos 80 porém nos shows de 1986 Eat That Rat foi a primeira música do set list. Antes da música de abertura uma intro aquecia a platéia para a entrada triunfal do quarteto. Ao longo de todos os anos 80 um rufar de tambores militares era a intro; nos anos de 1981, 1982 e 1983 tiveram a ideia de colocar a música instrumental tema de um filme de faroeste chamado The Good The Bad And The Ugly composta em 1966 pelo italiano Ennio Morricone. A abertura clássica com The Good The Bad and The Ugly mais Durango 95 e Teenage Lobotomy voltou em 1988 e ficou até o final da banda em 1996.

Dudu Munhoz

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Todos os anos, entre os meses de junho e agosto, a Europa é o lugar dos sonhos para qualquer fã de música e, mais especificamente, do bom e velho rock n roll. São milhares de shows e dezenas de festivais, espalhados pelo continente e pelas Ilhas Britânicas, oferecendo múltiplas escolhas para absolutamente todos os gostos. Além disso, a infra dos países deixa tudo muito fácil, desde a compra dos ingressos, passando pelas viagens, deslocamentos e o acesso aos shows, tornando a experiência muito agradável. E o mais incrível: como o custo de vida no Brasil está chegando a níveis estratosféricos, muitas coisas estão mais baratas na Europa do que aqui, mesmo com o euro agora batendo na casa dos 3 reais.

Já meio velhaco para aguentar o pique dos festivais, optei por shows em locais fechados, onde geralmente as bandas têm um maior controle sobre o som e a iluminação, além da garantia de conferir setlist/produções completos.

A primeira parada foi no Ziggo Dome de Amsterdam para conferir um dos shows da parte europeia da Clockwork Angels World Tour do Rush. Esta excelente venue fica em um complexo chamado Arena Boulevard, bem afastada da cidade, ao lado do estádio do Ajax e de outros locais de shows e entretenimento, como o Heineken Music Hall e o enorme bar temático World Soccer. Inaugurado no ano passado, o Ziggo Dome pode não ter a história de um Paradiso ou de um Madison Square Garden, mas compensa em modernidade e conforto. Com capacidade para 18 mil pagantes, tem o formato de um cubo, proporcionando excelente visão de qualquer canto. Exclusivamente desenhado para receber shows e espetáculos de grande porte, oferece uma acústica simplesmente espetacular. E como o show era do Rush, banda conhecida pelo perfeccionismo e que, depois de 40 anos de carreira, ainda faz soundcheck pessoalmente antes de todos os shows, era de se esperar que o show fosse tecnicamente impecável. E realmente foi. De longe, o melhor som que já conferi em um show em toda a minha vida, com volume e mixagem perfeitos. Dava pra ouvir cada detalhe como se você estivesse com um fone de ouvido, inclusive todos os nuances do grupo de cordas que acompanha o trio na segunda parte do show. Tudo isso sem perder o punch e o volume vindos do PA.

Sem banda de abertura, o Rush mais um vez dividiu o set em três partes, como tem feito em suas últimas turnês. A abertura é espetacular, com Subdivisions seguida de The Big Money, invertendo a ordem presente no duplo ao vivo A Show Of Hands, de 1989, já mostrando o clima da primeira parte do set, baseado na “tecladeira” dos anos 80 e começo dos 90. Tem gente que torce o nariz pra esta fase da banda, mas o material tem muita qualidade: ótimas canções que lembram um pouco a vibe do Police, que fazia mais ou menos o mesmo tipo de som naquela época. É também uma oportunidade única de ver todo o talento de Geddy Lee, que, além de cantar, toca linhas complexas de baixo e teclado como nenhum outro ser vivo neste planeta. Incrível. Apesar do foco no período mais leve e controverso da banda, as músicas que mais se destacaram na primeira hora foram as pesadas The Analog Kid (tinha esquecido o quanto esta música é boa – e com direito a uma aula de guitarra de Alex Lifeson) e Far Cry, esta última uma espécie de clássico moderno dos canadenses.

Agora, por mais que eu já gostasse muito do disco Clockwork Angels, nada poderia me preparar para o que assisti na segunda parte do show. Foram 9 músicas do álbum conceitual que dá nome à tour, tocadas em sequência, com o apoio dos cellos e violinos da Clockwork Angels String Esemble, mostrando que o Rush está no auge da carreira como artistas no sentido mais amplo da palavra. Se em canções como Headalong Flight e Seven Cities Of Gold esses senhores destroem os seus instrumentos (como já estamos acostumados), em The Wreckers e The Garden eles dão uma aula de composição, melodia e maturidade. O refrão da Garden é de encher os olhos de lágrimas e também o melhor momento da noite, com a letra que deixa claro que Neil Peart não é somente o melhor baterista do mundo:

The measure of a life is a measure of love and respect
So hard to earn, so easily burned
In the fullness of time, a garden to nurture and protect

Depois desta combinação única de destreza musical com a alta carga emocional de Clockwork Angels, o Rush ainda entregou uma bateria de clássicos, com Manhattan Project, Red Sector A, YYZ, The Spirit Of Radio, Tom Sawyer e 2112, tudo complementado pelos excelentes vídeos nos telões, cheios de humor e/ou significado. Um daqueles shows que a gente sai com um grande sorriso do rosto e que não vê a hora de ver de novo. Torcendo muito pra que esta tour também venha para a terrinha aqui.

Depois da verdadeira aula do Rush, a segunda parada foi três dias depois no tradicionalíssimo Bercy de Paris para conferir um show da tour Maiden England do Iron Maiden, baseada no clássico VHS gravado em 1988, lançado em 1989 e agora finalmente disponível em DVD. Quem me conhece sabe que o “Airão” é velha predileta da casa, sendo que este foi meu décimo nono show da banda. Ainda no metrô, já deu para perceber que, na Europa, o Maiden também conseguiu renovar bastante o seu público, como acontece aqui no Brasil e em toda América do Sul. Entrando na arena, me deparei com pelo menos 4 gerações de fãs de vários países, um clima bem mais “agito” e etnicamente variado do que o público majoritariamente holandês do show do Rush. Paris é definitivamente um dos mercados mais fortes da banda no mundo, com o Bercy absolutamente sold out, numa vibe não muito diferente de um show do Maiden em São Paulo, por exemplo.

A noite começou com o fraco show de abertura do Voodoo Six. Não que a banda seja uma porcaria completa, mas suas canções são tão genéricas e derivativas que somente dois fatos podem explicar a oportunidade de tocar em um evento deste porte: 1) o Maiden não precisa de uma banda de abertura que ajude a lotar as casas onde toca e 2) os caras são chapas do Steve Harris, que repete o nepotismo mostrado quando sua filha Lauren abriu os shows da tour Somewhere Back In Time em 2008 e 2009.

Expectativa lá em cima, o Maiden entra no palco com Moonchild e, apesar de ser umas das melhores músicas de abertura da carreira da banda, o som está uma verdadeira maçaroca, realmente péssimo, com o bumbo de Nicko e os vocais de Bruce altíssimos e o resto no maior estilo rádio AM. Acho desde o show do Sepultura abrindo para o Metallica em 1999 em São Paulo, eu não conferia um som tão ruim em um começo de show. Não se sabe exatamente o motivo, mas o Maiden demitiu Doug Hall no ano passado, o engenheiro de som que trabalhava com a banda desde 1980. Desde então, a Donzela vem sendo criticada pela qualidade sonora de suas apresentações e Paris não foi exceção. A coisa só foi melhorar mesmo lá pela quinta música do show, ou seja, além de Moonchild, a execução de Can I Play With Madness, The Prisoner e 2 Minutes To Midnight ficou prejudicada. De qualquer forma, a banda entrou com o jogo ganho e, com o Paris Bercy na palma da mão, Bruce comandou um divertido “Parabéns Pra Você” para o aniversariante da noite, o figuraça Nicko McBrain, antes de Afraid To Shoot Strangers. Falando nas duas personalidades mais extrovertidas do Maiden, Bruce está numa forma magnífica, cantando demais e parecendo um garoto, pulando por todo lado e sendo o sensacional frontman de sempre. Já Nicko, apesar de ser um grande batera, pela primeira vez me deu a sensação de estar tocando várias músicas com o “freio de mão puxado”, sem o mesmo pique de outros tempos. Não é fácil: ele já passou dos 60 e o material que ele mesmo criou é pra lá de exigente. Acho que a longevidade do Iron vai depender muito dele daqui pra frente, o que é realmente uma pena, pois todos os outros caras continuam moendo.

O set segue com 4 músicas da fase Early Days: The Trooper, The Number Of The Beast, Phantom Of The Opera e Run To The Hills, que transformam o Bercy numa festa. Nesta altura o som já estava com uma equalização melhor e também muito alto, evidenciando a boa forma dos 3 guitarristas, especialmente Adrian Smith, que anda em estado de graça já há alguns anos. Exemplo disso foi seu solo na música seguinte do set, Wasted Years, que manteve o astral lá no alto. Bruce pouco falava entre as músicas, provavelmente porque, com um setlist só de clássicos, a música já falava por ele. Além disso, a produção do show é provavelmente a maior de toda a carreira do Iron Maiden, com um jogo de iluminação impecável, três Eddies realmente espetaculares e um lindo palco azul que reproduz o universo gelado da capa do disco Seventh Son Of A Seventh Son. A música título deste álbum, por sinal, é a próxima do set e o grande destaque do show. Bruce mais uma vez rouba a cena, mudando seu figurino e fazendo da canção um pano de fundo para sua interpretação pra lá de dramática. O final instrumental é apoteótico e musicalmente maravilhoso, mais uma amostra da genialidade do patrão Steve Harris, que, assim como Bruce, está em ótima forma, a ponto de emendar uma tour de seu disco solo com esta excursão do Maiden.

The Clairvoyant, Fear Of The Dark e Iron Maiden encerram o show, que passa muito rapidamente, num piscar de olhos, sinal que o setlist realmente funciona muito bem, apesar das ausências de Infinite Dreams (substituída por Afraid nos ensaios antes da tour começar) e Hallowed Be Thy Name (fora do repertório pela primeira vez desde o seu lançamento em 1982). É engraçado que, neste show, eu realmente adorei a execução da Fear Of The Dark, música que sinceramente já estou (ou estava) de saco cheio, mas que, por razões que não consigo explicar muito bem, achei um dos pontos altos do show. O bis começa com Aces High, definitivamente um acerto, parece que o show está começando novamente, tamanha a energia. The Evil That Me Do e Running Free encerram esta verdadeira celebração dos anos de ouro do Iron Maiden, fato que deve se repetir em Setembro no Rock In Rio e demais shows na América do Sul. Depois desta tour, o Maiden deve voltar com um disco novo e uma tour baseada neste lançamento (que pode ser, inclusive, o último da carreira). Fica a dúvida se, depois do ciclo do próximo álbum, a banda fará uma outra tour “histórica” baseada nos sets dos discos No Prayer For The Dying e Fear Of The Dark ou se teremos apenas um best of de toda a carreira. Quem viver, verá.

No dia seguinte, voltei a Bercy, desta vez para conferir o velho mestre Neil Young e seus lendários comparsas do Crazy Horse. Se a arena era a mesma do show do Iron, o cenário era muito diferente. Desta vez, a casa estava cheia, mas não completamente lotada. O público também não era tão variado, na sua maioria franceses de 40 anos ou mais. Alguns hipsters eram exceção, mas esses ficavam a maioria do tempo conversando ou olhando para as telas de seus smartphones, então acho que nem contam muito. Infelizmente, não cheguei a tempo de conferir o show do Los Lobos, banda americana bem bacana que gostaria de ter visto.

Logo de cara, o cenário do palco já emociona, com o microfone de rádio e os amplificadores Fender falsos em tamanho gigante, como na capa do clássico Rust Never Sleeps. A diversão começa mesmo com a invasão de uma série de cientistas malucos perambulando pelo palco tentando tirar os cases dos “amplificadores” gigantes, contando pra isso, com a colaboração da plateia: quanto maior o barulho, mais chance dos amplis saírem dos cases. No meio da bagunça, Neil e seus velhos brothers plugam as guitarras e começam o show com dois clássicos: Love and Only Love e Powderfinger. O som é cristalino, mas ao mesmo tempo, barulhento. As guitarras formam uma teia, mais ou menos como os Rolling Stones, mas ao invés do suingue sacana de Richards e Wood, o que temos com Young e Sampedro é a mais pura e maravilhosa sujeira. O pique pode não ser mais o mesmo do lendário show do Rock In Rio em 2001, um dos melhores que já vi na vida, mas a categoria continua a mesma.

Mostrando que não voltou à estrada com o Crazy Horse apenas para um exercício de nostalgia, Neil emenda uma sequência de músicas de seu último álbum, Psychedelic Pill, com a inserção de duas músicas ainda inéditas em disco, formando a parcela “difícil” do show. A ótima e pesada Walk Like A Giant, por exemplo, tem seu final instrumental esticado em quase 10 minutos, soando quase como um proto Sonic Youth e testando a paciência dos fãs menos dedicados. A recompensa vem quando Neil fica sozinho no palco e manda, apenas com gaita e violão, as clássicas Blowin’ In The Wind e Heart Of Gold, esta última, o momento mais bonito do show.

Como a banda tem variado o repertório de show para show, estava curioso pra saber quais seriam as músicas finais do setlist. Bem, a resposta veio com uma sequência inacreditável de hits: Cinnamon Girl, Fuckin´Up, Mr. Soul (do Buffalo Springfield), Hey Hey My My (Into The Black) e Keep On Rockin´ In The Free World, um verdadeiro presente aos parisienses e ao brazuca aqui. Espero que a próxima vez que o velho Neil volte ao Brasil, não seja para dar palestra sobre sustentabilidade.

O último pit stop da jornada foi em Belfast, na Irlanda do Norte, pra conferir o The Who em sua tour Quadrophenia & More European / UK Tour. Na real, mais do que isso, pra realizar um sonho mesmo, já que, entre todas as bandas que eu nunca tinha visto ao vivo, o Who era a primeira da lista. Este posto agora está ocupado pelo Sabbath com o Ozzy, mas como devo ver este show em outubro aqui no Brasil, quem vai para o topo da most wanted list são Rancid, Soundgarden, Mastodon, David Gilmour, Morrissey, Descendents, o que sobrou do Thin Lizzy e a bela Fiona Apple.

O local do show, a Odyssey Arena, é um moderno ginásio de hockey no gelo. Pra cerca de 10 mil pessoas, tem o tamanho ideal pra um show deste porte e excelente acústica, o que deu pra ter certeza já na entrada, com o Vintage Trouble tocando. Peguei 4 músicas do show deste grupo americano que vem acompanhando o Who desde a tour norte-americana do ano passado. Os caras misturam rock, blues e soul, com postura, visual e som, realmente o pacote completo. O vocalista Ty Taylor é um show à parte, canta e dança com muito carisma, conseguindo assim envolver uma plateia que não estava lá para vê-los. Vale a pena correr atrás do som dos caras, bandaça.

Luzes apagadas, pint de Guinness na mão, o Who entra bem de boa no palco, ao som do mar, fazendo todo sentido com o local do show, que fica ao lado da Marina de Belfast. Acompanhando Pete Townshend e Roger Daltrey, temos três tecladistas, dois sopros, além do baixista Pino Paladino, do ótimo guitarrista e vocalista Simon Townshend (irmão de Pete) e do batera Scott Devours, que substitui o atual titular Zack Starkey, que está com um problema no tendão. Sem falar uma palavra com a plateia, a banda executa o clássico Quadrophenia do começo ao fim, um espetáculo ao mesmo tempo denso, melancólico, catártico e divertido. Ouvir no show um disco em sua sequência original é uma experiência muito peculiar, gratificante mesmo, pois a familiaridade com a obra traz um inevitável sentimento de nostalgia. Além disso, pra quem já ouviu o disco centenas de vezes, já viu o filme, leu as entrevistas e tudo mais, ver a obra executada por completo com som excelente, vídeos bacanas nos telões circulares e, principalmente, ver os caras ali na sua frente, é um verdadeira viagem. Demora um pouco até cair a ficha que, sim, ali estão Roger e Pete, lendas do rock, mas também simples seres humanos, dois senhores de 70 (ou quase) anos de idade. Pete é o cara, o chefão, o maestro, o talento, e isso fica bem claro quando I’m One começa. Já Roger é pura entrega e coração, além de ter o melhor geriatra do mundo, pois é difícil acreditar que ele já é um setentão – tá bem, o velhinho.

Fica até difícil eleger destaques no set de Quadrophenia, mas é preciso dizer que Simon Townshend arrasa nos vocais de The Dirty Jobs e que 5:15 levanta o estádio, colocando a Irlanda do Norte inteira pra dançar. No final da música, John Entwistle ressuscita em vídeo e faz um solo de baixo duelando com Scott Devours, numa homenagem que não deveria funcionar, mas, pelo contrário, arrepia até o último fio do bigode, com Pete Townshend batendo no peito e berrando “That´s John, my brother!” fora do microfone. É claro que Keith Moon também marca presença nos telões, “cantando” Bell Boy com o precioso auxílio tecnológico e colocando um sorriso no rosto de todo mundo. Com quase duas horas de show, Quadrophenia chega ao fim com Love Reign O´er Me e o show particular de Roger Daltrey, projetando toda a emoção da composição de Pete.

Com seu lendário chapéu-coco, Pete Townshend agradece a presença em plena noite de segunda-feira, fala sobre a Irlanda, a banda, o disco, o universo e mais um milhão de coisas, em longo e divertido discurso, até ser interrompido por Roger num comentário no melhor estilo “esse aí fala muito”. Sem sair do palco, a banda emenda o “& More” do nome da tour, uma verdadeira covardia: Who Are You, Behind Blue Eyes, Pinball Wizard, Baba O Rilley e Won´t Get Fooled Again. No fim, todo mundo se manda e sobram apenas os fundadores e, hoje, amigos, Roger e Pete, pra tocar a emocionante Tea And Theatre com luzes acesas e a aceitação de tudo, especialmente do tempo:

A thousand songs, still smoulder now
We played them as one, we´re older now

Pete jura que esta música não foi escrita sobre o The Who, mas o tema encaixa com perfeição no momento atual da banda. E o que vale para o Who, vale também para o Rush, o Maiden, Neil Young & Crazy Horse e para vários outros veteranos dos bons sons: mesmo que o auge desses artistas esteja no passado, a qualidade do trabalho é tão grande que se torna atemporal. Por isso mesmo, relevante ainda hoje e, provavelmente, para sempre.

Fabian Oliveira

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Vamos falar a verdade: que shows você moveria montanhas pra conferir de qualquer jeito?

Há 20 anos eu podia eleger um monte só no campo do punk rock e hardcore. Muitos mesmo… tanto que nesse tempo viajei bastante correndo atrás das bandas que moveram a onda e fizeram jovens punks eleger prioridades e correr atrás pra ir ver no palco a qualquer custo. Duas décadas depois, infelizmente, a sensação é de um certo desconforto. Os shows do Millencolin e No Use For a Name, por exemplo, foram realmente decepcionantes pra mim.

Outros, como Misfits, Dead Kennedys (sem Jello), Hot Water Music, Rise Against, até tiveram momentos sublimes, mas enquanto produção e execução deixaram bastante a desejar.

Algumas das bandas que ajudaram a construir a personalidade deste modesto apaixonado pelo gênero e de muitos outros amigos na mesma energia simplesmente deixaram no ar a sensação de que não, não teria valido a pena gastar tempo, dinheiro e as vezes outras coisas mais importantes só pra presenciar e incluir no currículo. É uma pena constatar isso, chega a doer o coração. Mas a verdade que vejo hoje, mais maduro e tendo visto muitas outras bandas de outros gêneros que não tem como evitar comparar, que muitas daquelas bandas tinham o vigor, a postura, os bons discos e tudo o mais, mas ao vivo não chegam a marcar a vida pra sempre.

Evidente que é uma opinião polêmica e, por certo, muitas posições diferentes dessa minha podem surgir – estamos abertos pra ouvir e aprender, talvez mudar de ideia!

Mas hoje, tendo quase fechado o ciclo todo, sinto que apenas 4 shows das bandas que tornaram aquela geração gigante realmente valem a pena todo o esforço. São apenas o eterno Bad Religion (por razões óbvias – são a banda mais competente do punk rock ainda em atividade), o Social Distortion (Mike Ness, como digo, é o melhor contador de histórias da história do rock e valeria a pena pagar ingresso só pra ve-lo falar entre as músicas), o NOFX (porque clássico é classico e apesar do eventual mal-humor a diversão é sempre garantida) e o Rancid (a cereja do bolo que, na verdade, pode ser que valha mais que o bolo todo).

Não me leve a mal, caro leitor! Reconheço sem dúvida que um Bouncing Souls, Down By Law, Pulley, MxPx, No Fun At All, Less Than Jake, Reel Big Fish, Bad Brains, Offspring e muitos outros são bons shows! Não os tivesse visto, talvez de fato movesse montanhas para ir ve-los. Mas depois de ver uma vez… bem… ficou uma sensação de “na trave”, talvez de falta de alguma coisa.

Hoje temos grandes bandas de rock fazendo shows de 2 horas ou mais, enquanto a maioria dessas bandas punk as vezes nem completa 1 hora! Produções visuais caprichadas e qualidade real de audio, com som cristalino e uma banda dedicada fazem diferença, mas vemos isso tudo com certa frequencia em bandas mainstream, porém não vemos quase nunca nos shows punk, quase sempre com um bandeirão lá atrás do palco e… mais nada! Em grande parte dos shows punk, mesmo hoje, quem não conhece as músicas não consegue decifrar a letra de ouvido, talvez pela má-qualidade do equipamento, talvez porque seja assim mesmo o som, mas o fato é que, quando você vê tantas bandas mesmo desconhecidas e as entende a sensação que fica é mais… nítida, mais agradável.

A energia e o mosh pit, sem dúvida, são os diferenciais perenes dos shows punk. Não é raro de se ver pogos épicos mesmo em bandas pouco conhecidas e essa variável, sem dúvida, as vezes representa TUDO o que um garoto punk quer ter na vida. O “for fun” é evidentemente levado a sério e todos nos sentimos adolescentes de novo nos shows das bandas punk de nossa vida, mas é mesmo um grande show, do ponto de vista da qualidade técnica, ou é mais uma vivência coletiva que nos faz curtir tanto?

É imprescindivel lembrar que bandas que hoje não estão mais conosco, como os Ramones, botariam toda essa teoria no lixo, já que comovem pelo simples aparecer no palco – e nem poderia ser diferente.

Mas e aí? O punk de outrora vai um dia querer algo mais num show?
Se a resposta for não, se isso tudo, que pra mim é pouco, satisfaz… então maravilha.

Mas e se a resposta for sim? E se um dia o jovem que se satisfazia em cantar descontroladamente aquela letra com a qual se identificava, por acaso, resolver escutar com cuidado os solos de guitarra ou a linha de baixo e não consegue? Será que o ambiente de um show punk satisfaz?

Minha triste conclusão, hoje, é que uma peneirada na qual se joga mais material junto pra então separar o joio do trigo pode trazer um certo nivel de insatisfação com a maioria dos shows punk. Ainda persiste, por certo, a postura crítica, a voz em prol de algo, a emoção extrema e deslavada que só o punk pode te dar… mas é suficiente?

Não quero com isso desanimar ninguém. Quero apenas ajudar, humildemente, a imensa geração que cresceu no punk, como eu, a ver que o mundo oferece muita coisa boa fora da nossa coleçãozinha tão amada. Talvez, apenas talvez, seja hora de vermos que o mundo foi adiante, os shows cresceram em qualidade, a quantidade e oferta que vem até nós também… e as vezes a satisfação completa vem dos shows menos esperados.

E se em certos dias eu abriria mão de ver de novo tanta coisa que me era tão cara, também não é demais lembrar que temos, e pelo jeito por muito tempo, o Big Four do punk ainda representando com Rancid, Bad Religion, Social Distortion e NOFX.

Qual o seu Big Four (ou Five, ou Six…) pelo qual mataria e comeria grama mas não perderia de jeito nenhum, caro leitor? Quem sabe me ajuda a lembrar o que uma mente meio bloqueada por excesso de opção acabou esquecendo indevidamente.

Hildo Junior

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Quem gosta muito acima da média de música talvez tenha algo a contar parecido com o que tenho a contar hoje. No frio do inverno curitibano de 1995, num daqueles dias de sol bom pra atenuar o frio e céu azul sem nuvens, fiz a minha tradicional visita semanal à CD Club da Emiliano Perneta, quase de frente às Lojas Americanas, pra ver o que tinha de novidade. E o que tinha de novidade naquele agosto, retorno das aulas na Faculdade, era o terceiro CD do Rancid, banda com a qual simpatizei no self titled mas só vim a gostar mesmo no Let’s Go do ano anterior por causa de “Radio” e “Salvation”.

Eu tinha o hábito de passar horas na loja, escutando coisas “diferentes” mas relacionadas aos meus gostos por punk rock e hardcore tão prementes, pra escolher o que levar… ou então de comprar direto o novo album daquelas bandas em que já confiava. “… And Out Come The Wolves” foi esse caso, comprei o disco sem pestanejar e me pus a caminhar pela Rua XV, fone no ouvido e ansiedade pra ver o que o Rancid tinha feito. Nunca mais vou esquecer aquele dia e a forma como o sorriso foi aumentando no meu rosto, no meio do calçadão, o crescente fervor do sangue por algo que estava pra mudar minha vida e meu gosto por música pra sempre. Na quarta faixa, ainda que te pareça exagero isso, eu já tinha quase certeza de que aquele seria o disco que eu mais teria ouvido ao final de meus dias, o disco que aos 90 anos eu ainda contaria orgulhoso que ouvi por toda a minha existência. A quarta faixa era “Time Bomb”.

18 anos esperando pela chance de ver ao vivo o conteúdo de “… And Out Come The Wolves”, o disco que desde a primeira audição foi eleito (e até hoje é mantido no cargo) como o melhor album de todos os tempos pelos meus próprios critérios, que vieram a ser recompensados com um SENHOR SHOW no Terminal 5, um venue espetacular de Manhattan com ampla e confortável pista, 3 mezzaninos e rooftop lotados com 3 mil espectadores e nenhum incômodo, desprazer ou dificuldade – literalmente só alegria.

Era a segunda noite da banda na casa e em ambas o Transplants, banda que puxa mais pro trip hop e hip hop com hardcore e que tem Travis Barker do Blink-182 na bateria e o mesmo Tim Armstrong do Rancid na guitarra e voz, fez a abertura. No show do dia 21 foi uma belissima abertura, com impressionante performance do “baterista jovem mais elogiado da música moderna”… e Travis realmente quebrou tudo, muito mais até do que num show do Blink. Talvez por mérito das canções menos cadenciadas e mais cruas da mistura de hip hop com punk, talvez simplesmente porque o Blink é fraco (em comparação com qualquer coisa vinda de Tim Armstrong) na produção e criação de harmonias mesmo. Não são poucos os que alçam Travis à condição de melhor baterista em atividade no mundo, mas vamos com calma com o andor. Ele é bom, preciso e tem uma pegada fora de série, além de performático e com timing perfeito. Mas ainda estou pra ver (ou ouvir uma gravação) dele mostrando mais cadência, jogo de cintura e criatividade pra continuar nesse perigoso caminho de opinar tão firmemente sobre suas habilidades. De todo modo, foi um grande show, a banda botou pra quebrar fazendo abrir um pogo considerável e, mesmo sem ser fã, senti já ter valido o ingresso. Em determinado momento chamaram Matt Freeman, baixista do Rancid, como convidado especial para uma música… e a música era uma de um comercial bem conhecido do shampoo Garnier Fructis!! Não conhecia mas na hora me liguei… e foi bem legal! 

Mas o melhor estava por vir e, do final do Transplants até o período para troca de palco com som mecânico a “violência camarada” do pessoal da frente se apertando, já pogando e abrindo mosh pit mesmo sem banda no palco, dava pra perceber que a noite continuaria firme… e bruta!

Os primeiros acordes do Rancid não poderiam ser mais espetaculares, com a palhetada de Roots Radicals e o vocal rouco de Lars acompanhado por um coro quase militar de “Took the 60 bus out of downtown Campbell, Ben Zanotto, he was on there, he was waiting for me…”. Eu “achava” que estava seguro do mosh e sem risco de ser atropelado por rinocerontes lá no fundão da pista, mas foi um ledo engano. Há muitos anos não via tão incrível ebulição tomar conta de uma plateia tão rapidamente. Em 30 segundos de banda no palco acho que todos os copos de cerveja da casa foram lançados ao teto e nenhuma alma permaneceu parada. Éramos todos, da grade à parede, uma massa única pulando, gritando, cantando, se emocionando e voltando aos 18 anos de idade (a faixa etária dos presentes me pareceu bem alta, a propósito). Uma só música executada e todo mundo ali já sabia que algo extraordinário estava acontecendo. Os celulares, óculos de grau, tênis, blusas, bonés e tudo o mais que ia ao alto não deixavam dúvidas disso.

Ouvia-se ao redor todo o tipo de elogio no decorrer do set. “Incrível, assustador, espetacular!” e ninguém parecia querer sair daquela brutal aglomeração, talvez violenta além da conta de qualquer pessoa que não estivesse acostumada a shows punk (refiro-me a coisas REALMENTE punk, quebradeiras fortes mesmo, e não aquele pogo contido e quase católico de bandas como Green Day e Offspring no seu auge). Eu mesmo, que estava me recuperando de umas duas semanas tomando antibióticos e nem podia beber, perdi meu copo de d’água antes do fim da segunda música e minha dignidade logo depois. “Que se dane, vamos à luta!” pensei comigo e me joguei, descontrolado e entregue, como acredito não fazia desde antes de ter e-mail. 

E se o set do Rancid foi perfeito em todas as suas formas, com metade do meu disco favorito DA VIDA (e que, salvo engano, a revista Rolling Stone considera o melhor album de punk rock dos anos 90 – justamente a década da explosão do gênero) e mais todos os clássicos de seus 7 albuns espaçados em cerca de 2 horas, não menos perfeita foi a galera presente. Vi tanta gente caindo esfalecida de cansaço de tanto pular quanto gente se agarrando em correntes instantaneas de proteção para quem o chão encontrava. Público brutal, assustador e forte como nunca vi em nenhum lugar, mas talvez cuidadoso e atencioso com qualquer possível queda como também não acredito ter visto antes. Belo exemplo de energia e extravaso, mas com respeito e senso de coletividade. E cantaram TUDO, alto e sonoro, como num estádio lotado.

Com alguns convidados no decorrer do show e um total de 29 músicas (setlist completo abaixo), foi incrível ver como a voz de Lars ecoa tão forte como um jato, com uma sonoridade rasgada e urgente que talvez ela, sozinha, seja capaz de botar meio mundo pra pular. Tim Armstrong é um estilo único e inconfundível, se mexe o tempo todo, pula e sobe nos retornos, mas sempre parece estar tocando sem dificuldade, até meio que blasè… Tim toca e empolga lidando com seu instrumento e com a posição no palco como um senador romano, talvez, e é evidentemente o dono do mundo. Matt é incrivelmente cool, o típico ska-punk contido e tranquilo, mas que explode a qualquer momento em energia (no caso dele, energia de graves contundentes) como o personagem de Time Bomb, talvez o hino máximo, pra mim, de uma época inteira de diversão, amadurecimento e crescimento no que se refere a apreciação musical, como foram os anos 90 inteiros.

Ao final daquilo tudo, num bis que tava nada mais, nada menos, que “Radio” e “Ruby Soho” em meio a declarações de amor de Tim por Nova Iorque, parecia de fato que toda aquela gente exausta, suada, suja, molhada de cerveja, alguns com hematomas, estava no mesmo estado de espírito. O estado de espirito de jovens curtindo a vida, descobrindo o mundo, se conectando entre si e sorrindo, apesar da brutalidade da realidade em contraposição ao lirismo dos sonhos, enquanto a vida real converte os anos 90 nos 2000, 2010, 2020… para onde todos vamos, afinal.

Rancid Setlist:

Roots Radicals

Journey to the End of the East Bay

Maxwell Murder

The 11th Hour

Last One to Die

East Bay Night

Dead Bodies

Old Friend

Hooligans

Red Hot Moon

Nihilism

Black & Blue

Fuck You

Gunshot

Listed M.I.A.

Salvation

Bloodclot

Rejected

It’s Quite Alright

The Wars End

Fall Back Down

St. Mary

Olympia WA

Something in the World Today

Tenderloin

Time Bomb

Radio

Black Derby Jacket

Ruby Soho

Hildo Junior

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A Tour de Clockwork Angels já tinha sido um sucesso de vendas e público na America do Norte em 2012 em indoor venues e, agora em 2013, expandiu-se para a Europa trazendo uma novidade nos 40 anos de carreira do trio: o primeiro show num dos grandes Festivais de metal verão do Velho Continente.

Para quem não sabe, o clima/atmosfera desses Festivais é o melhor ambiente do mundo para um evento de música. Estrutura de dar inveja a qualquer Rock in Rio (nem vou citar Lollapalooza e afins, seria como comparar a casa-grande com o curral), infinitas opções de comes e bebes a bons preços e sem filas, banheiros e assistência médica de primeira, facilidade incrível de acesso e saída, enfim, tudo nos Festivais de Verão da Europa traduzem facilidade além da conta e conforto nunca dantes imaginados para um roqueiro.

No Sweden Rock, por seu turno, o festival escolhido a dedo pela banda para cumprir essa tarefa de um dia tocar num grandioso evento compartilhado, a facilidade e a tranquilidade do público chegam a níveis supremos. E o Rush ainda teve a honra de compartilhar o dia de Festival com Accept, Kreator e Avantasia que fizeram shows magníficos!

Eu já tinha ouvido dizer antes de conhecer que, no Sweden, como em nenhum outro lugar do mundo, seria mais fácil chegar até a grade em qualquer momento de qualquer show, para ficar de cara com seu ídolo, do que sair para um hot dog. Não que comprar comida fosse difícil, mas o clima da galera e a tranquilidade daquele público de quarentões pacíficos bem resolvidos (em meio a um tanto incontável de crianças loiras roqueiras felizes e sorridentes que parecem induzir estarmos na Disney) é de outro mundo. E, de fato, isso torna a multidão uma massa tão facilmente contornável que você anda para onde quiser, na hora que quiser, desviando-se menos do que na Rua XV em Curitiba num dia de sol. É mesmo mais fácil chegar até a grade e curtir o show na primeira fila do que sair do seu lugar até 20 metros pra trás em qualquer evento brasileiro.

Nenhum esbarrão atingirá você, ninguém jamais te ameaçará ou tentará passar por sobre você, ninguém em nenhuma hipótese vai se postar na sua frente, tapando sua visão, só pra ficar um pouquinho melhor. Apesar de consumo de álcool em evidentes proporções nórdicas (os vikings de outrora revivem no Sweden Rock e, olhe, esses caras REALMENTE bebem!), NENHUM ébrio te incomodará, dará vexame ou passará mal.

Nenhum puxará briga, nenhum deixará de pedir imediato perdão caso (o que é improvável) venha a te encostar. Respeita-se totalmente o espaço e o conforto do próximo, todo mundo parece saber que não é fácil curtir um show se acotovelando e, assim, todo mundo respeita na medida exata do conforto do grupo – o que deixa o conforto individual fácil, sem esforço. O Sweden é incrível nesse aspecto. Tem conforto de indoor venue mesmo sendo open air, tem visão de teatro mesmo sendo um grande campo/gramado. Os palcos, embora relativamente próximos entre si, não têm bandas concomitantes (uma acaba, a outra lá no palco seguinte começa) e assim fica moleza ver todos os shows, de onde se quer, sem perder nada! Perfeito!

O setlist fugiu um pouco, mas não muito, do tradicional que a banda vem executando desde a abertura da tour. A redução de 3h para 2h20 de duração justifica-se menos por exclusão de músicas e mais pela remoção do intervalo de 15 minutos e de um dos dois grandes solos de bateria de Neil Peart. Em Amsterdam no show solo poucos dias antes eles tocaram 27 músicas, já no Sweden tocaram 20, tirando 3 “oldies” da primeira parte do set (“Force Ten”, “Bravado” e “Territories”), 3 da parte intermediária (na qual tocam o disco “Clockwork Angels” com um set de cordas como convidado) e, no trecho final, retiraram a clássica “Manhattan Project”. Na prática, somente a falta da última é realmente sentida, de tão enxuto que é o repertório e tão bem distribuído apesar de tudo. Não deixam de ser 2h15 de música em altíssima qualidade e alta octanagem!

Ainda a explicar um pouco desse set, é nítida a divisão entre a inicial referência aos anos 80 e toda a onda yuppie, passando pela parte central (e mais importante) do show com a execução de Clockwork Angels (e o set completo de cordas convidado: violinos, cellos, etc.) que se aperfeiçoa a cada show, e, ao final, com o arrasa-quarteirão dos clássicos em sequencia Red Sector A, YYZ, Spirit of Radio, Tom Sawyer e a maravilhosa 2112. Ao final (ou durante) desta, basta olhar para os lados: todos os suecos do mundo estão em Jupiter, é um show que arrebata qualquer um. Mesmo o incrédulo, o outrora “desconfiado”, a essa altura não mais se contém e já está entregue à qualidade técnico-musical desta banda tão espetacular!

No que se refere ao visual e à produção, destaque-se que cada um dos três músicos tem um espaço semi-personalizado com um belíssimo apuro visual no tema steampunk, algo a ver com vapor, máquinas, engrenagens, coisas velhas, vintage, analógicas. E uma pipoqueira funciona atrás de Geddy Lee, dando um ar surreal à coisa toda – e fazendo a decoração e até os temas visuais combinarem perfeitamente com a épica jornada retratada no decorrer do disco novo, de um jovem em busca do Relojoeiro (Watchmaker) que acaba por descobrir muitas coisas interessantes e contrárias ao senso comum por esse caminho por vezes tortuoso, por vezes lindo demais para ser real. Há pirofagia, há vapor, há cenas lindas no telão, com flores que desabrocham depois de tormentas pesadas, há tudo que um show realmente bem produzido no audiovisual pode oferecer, e tudo isso é entregue com máxima perfeição. E faz arrepiar!!

É bonito de ver o Rush conquistando uma plateia… Embora a banda tenha seus muitos fãs cativos, sempre se vê aqueles paradões ao redor que parecem estar lá mais para aprender a falar que “não é legal, bem como eu imaginava”… e que geralmente são os que acabam com o sorriso mais aberto, no estilo “é, tem que respeitar esses véio, que showzão!” ao final. Divertidíssimo!

E assim é um show do Rush, que no Sweden teve palco e estrutura visual completa, audio PERFEITO e público animado, um espetáculo multimidia com tons de ópera e sinfonia, mas sempre com uma pegada rock’n'roll clássica de riffs pesadões que parecem fazer os ouvidos sangrarem de prazer a linhas de baixo hipnoticas e que fazem um desavisado acreditar não ser um homem que toca o instrumento, mas um polvo dotado de 4 pares de membros. Geddy Lee, por falar nisso, parece se divertir mais e mais com as harmonias que faz e ninguem mais no rock moderno copia, uma sonoridade que é tão épica, tão linda, quanto forte e arrebatadora. Como pode tocar assim um senhor magrinho dessa idade?

E o baterista? O que dizer da precisão, do tempo, da pegada incomparável de Neil Peart? O homem impassível, que batuca uma moeda na parede sem deixar cair, dessa vez até sorriu! Pareceu ter prazer, o que é raro (aparentar, não ter o prazer em questão), mas não deixa de ser igualmente sinal do que é esse Sweden Rock: um festão de gala! Se havia dúvidas nesta novidade em 4 décadas de carreira, se era possível temer que sem a acústica e produção integral de uma arena fechada pudessem reduzir um pouco o nível do show, o Rush - de novo - entregou um show atual, motivado, forte e cheio de novidades: sim, alguns arranjos foram alterados, a banda fez umas 4 ou 5 belíssimas jams e improvisou por diversas vezes, provando que, ao contrário de um monte de babaca aí do mainstream que posa com galhardia de bom músico mas não passa de repetidor/copiador, existe SIM músico curtindo aos 40 anos de execução de algumas músicas ainda uma energia de alegria e simples “tocar junto” que tornam o show um eterno loop de energia criativa.

Como sempre, não se cogita num show do Rush a palavra “erro” no que fazem as mãos (e pés) desses três sessentões com seus instrumentos. Assim como não existe o adjetivo “fácil”, também. São músicos de altíssimo nível e não se engane: você não vai conseguir tocar um show de 2 horas no verão europeu, como eles, com esse nível de arranjos e precisão nas dificílimas notas, como quem estivesse numa divertida conversa de bar. Isso se chama “extraordinário” e, olhe, tá na hora de você conhecer antes que o timing passe.

Gostaria que o Rush fosse eterno, mas não é. Quando e onde é o próximo show dessa tour, então?

Hildo Junior

Fotos por Venâncio Filho

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