In: Rock Brasil|Shows
16 May 2012Nos últimos anos, muitas bandas estão promovendo turnês temáticas, tocando álbums na íntegra ou retrospectivas de uma parte específica ou de toda a sua carreira. É aquela coisa: discos não são mais fonte de renda, as gravadoras não têm mais grana para suporte, os músicos têm que se virar. O dinheiro está nos shows, portanto não há outra alternativa a não ser criar fatos que atraiam a maior quantidade de público possível. Esta tendência começou na gringa e agora está tinindo também no Brasil. Faz todo sentido: a concorrência dos festivais e dos shows das bandas internacionais é enorme. A parte boa disso é o resgate de canções deixadas de lado pelos artistas durante muitos anos – uma oportunidade de ouro para os fãs antigos curtirem suas músicas favoritas ao vivo e também para a nova geração poder conferir tudo isso pela primeira vez.
Um bom exemplo é a nova tour dos Titãs, que comemora 30 anos de banda tocando na íntegra o seu melhor disco (pelo menos pra quem gosta de rock), Cabeça Dinossauro. Deixando de lado os acústicos, os “ao vivos” e as musiquinhas de novela, a banda aparece na sua forma mais potente, enxuta e divertida. O show já está na estrada e a performance na Virada Cultural paulistana foi muito elogiada. Além do Cabeça do começo ao fim, os caras retomaram algumas músicas do LP Titanomaquia, o cultuado “disco grunge” da banda, produzido por Jack Endino. Se você não dá muita bola pros velhinhos, garanto que irá se surpreender. Pra quem é fã, é imperdível.
Uma tour muito comemorada pelo pessoal com mais de 30 é a reunião da formação clássica do Viper, com André Matos no vocal, 25 anos depois do lançamento do seu primeiro disco. A ideia da banda é tocar na íntegra os seus dois primeiros discos, Soldiers Of Sunrise e Theatre Of Fate, grandes marcos do metal nacional. O primeiro foi gravado quando os caras eram moleques entre 15 e 17 anos e é bem derivativo das bandas gringas dos anos 80, especialmente Iron Maiden e Judas Priest. A produção não é lá essas coisas e as letras são risíveis. Isso, porém, faz parte do charme do álbum, que é espetacular. Toda a inocência e a energia da gurizada está estampada em cada momento dos 34 minutos do álbum. Mesmo novinhos, eles já eram grandes músicos, especialmente André e o batera Cássio Audi. Mas o destaque maior vai para as músicas do baixista (e depois vocalista) Pit Passarel, um sujeito que nasceu com um puta talento natural para compor. Isso ficou ainda mais evidente em Theatre Of Fate, que combinou o metal tradicional da banda com influências de música clássica, Queensryche, Queen e Fates Warning, resultando num metal bem melódico, de muito bom gosto e sem exageros. No fim da tour, André saiu da banda pra estudar música clássica (e formar o Angra anos depois) e Pit levou o Viper para os anos 90 com um som mais sujo e agressivo, mas quem viveu a época nunca esqueceu daqueles fantásticos LPs, que abriram o mercado japonês e europeu para o metal brasileiro. A To Live Again Tour 2012 começa em São Paulo no dia 01 de Julho e vai percorrer o país.
Outro aniversário que está sendo celebrado na estrada são os 15 anos do Los Hermanos. Amados e odiados na mesma proporção, os cariocas começaram uma viagem retrospectiva pela carreira no Abril Pró-Rock no mês passado e estão levando milhares de fãs aos seus shows. Com o hiato, a demanda pela banda ficou ainda maior. Outra vantagem desta parada é que a vontade de Marcelo Camelo de tocar MPB, bem demonstrada no chatíssimo disco 4, acaba ficando apenas para a sua carreira solo, não desagradando tanto os fãs mais rockeiros dos hermanos. A novidade desta tour é a volta de músicas do primeiro disco ao setlist, como Pierrot, Quem Sabe, Tenha Dó, Azedume, Descoberta e até Anna Júlia. Outro destaque é que a banda está tocando seu melhor disco, Ventura, praticamente na íntegra, lavando a alma da galera. Gostando ou não, o Los Hermanos representa no Brasil mais ou menos o que o Strokes significa na gringa: o último grande estouro de uma banda ainda no esquema gravadora-disco-clipe-sucesso-mainstream. Agora, ou você é pop (Lady Gaga) ou aparece na internet (Arctic Monkeys) ou os dois (Lana Del Rey).
Quem também completa 15 anos em 2012 é o Sugar Kane, mas claro, num esquema completamente diferente dos Hermanos. Formada na cena do punk rock / hardcore melódico do fim dos anos 90, a banda curitibana radicada em São Paulo nunca chegou a fazer sucesso mainstream como um CPM 22, por exemplo. Mas assim como o Dead Fish, o SK tem uma discografia excelente, fãs por todo o Brasil e uma carreira de respeito, conquistada no peito e na raça, na base do it yourself da completa independência. O níver foi comemorado em Fortaleza, com direito a gravação de DVD e tudo mais. Nosso amigo Hildo aqui do Fone esteve lá, quem sabe rola um review em breve.
Tem gente que prefere que as bandas parem no “auge do sucesso”, ficando com aquela imagem congelada dos integrantes aos 20 e poucos anos conquistando o mundo (ou, no caso deste texto, o Brasil). Na real, uma grande bobagem. Seja por nostalgia, grana, celebração ou a simples vontade de tocar as músicas antigas, não importa o que motiva uma banda a voltar para a estrada. Pra quem gosta de música, o melhor mesmo é aproveitar enquanto elas estão na ativa. Pode ser a sua última chance.
Fabian Oliveira
In: Psicodelia|Punk Rock|Rock
4 May 2012
Londres. Esta cidade que tanto falam ser o berço do mundo quando se trata de rock. Pra você faz sentido? Para mim não faz tanto sentido, não. Tirando os Sex Pistols, que são londrinos, o Joy Division e o The Smiths foram paridos em Manchester. Oasis? Para quem gosta vale lembrar que também são de Manchester. Mas colocar Oasis no mesmo balaio que Joy Division e Smiths chega a ser ridículo. Mas que o Reino Unido volta e meia nos brinda com puta bandas não podemos negar. De The Clash à Rolling Stones. Dos Beatles à Buzzcocks (também de Manchester). Para falar de rock inglês, dava pra passar a noite escrevendo.
Mas chega de aula de história do que todo mundo tá cansado de ouvir e saber. A verdade é que há tempos a terra da rainha não nos brindava com uma banda, digamos assim, “sujinha e legal”, não é mesmo? Pois bem. Sempre desconfio quando a NME baba ovo em alguma banda. Mas parece que uma pequena unanimidade anda surgindo da NME à Maximum RocknRoll, passando pela Spin e até mesmo pela MTV inglesa. Fiquem de olho no Turbowolf, banda parida por Bristol, amiguinhos.
Algo que me chama bastante atenção quando conheço uma nova banda é não conseguir classificá-la em determinado tipo de som. Sem rótulos. A única coisa que presta e precisa de rotulo é cerveja de garrafa. O disco homônimo debut do Turbowolf de 2011 é um balaio de gato de sonoridades.
A banda começou a ter visibilidade abrindo os show do Korn onde uma galera parece ter ido mais pela curiosidade em cima do Turbowolf do que pela banda principal. Boatos dão conta que a lenda das baquetas Igor Cavalera viu o show dos caras e pirou tanto com o som quanto com a qualidade em cima do palco e intimou os caras pra uma tour aqui na terrinha.
Bateria/baixo/vocal maluco/guitarra com sintetizadores na medida certa. O resto é rock com pitadas de punk e psicodelismo. Chuto como uma das bandas que mais vão ser comentadas e baixadas em 2012. Rock sujo e bem feito. Tava fazendo falta uma banda nova assim, não tava?
London Calling?? No! BRISTOL CALLING NOW!
Andre Ganso
In: Prog|Shows no Brasil
26 Apr 2012Abril de 2012 vai ficar marcado na memória dos apreciadores de música como o mês com a maior quantidade de shows internacionais em todos os tempos na terra brasilis. Rolaram gigs para todos os gostos: mestres atemporais como Dylan e Macca, ecletismo total no Lollapalooza, metal clássico e thrash no Metal Open Air (que infelizmente ficou marcado pelo amadorismo e irresponsabilidade dos seus produtores), pop infanto-juvenil com Demi Lovato, o rock alternativo do Nada Surf, indie rock com The Vaccines, Ting Tings e Carl Barat, o punk de Misfits e The Damned, a barulheira do Brujeria, além de Roger Hodgson do Supertramp, uma nova visita do Duran Duran, o grande Mark Lanegan do Screaming Trees em show solo, ou seja, 30 dias pra lá de movimentados.
No meio de tantas escolhas, fui ao Lollapalooza ver o excelente show do Foo Fighters e a rock n roll queen Joan Jett, mas esse assunto já foi muito bem comentado pelo amigo Hildo Junior aqui no Fone. Todos os outros shows que conferi são de bandas/artistas que possuem alguma relação com o Prog Rock. Foram três eventos muito diferentes entre si, quase como uma analogia do próprio estilo, que prima pela diversidade.
O primeiro desta série de shows foi o mega-espetáculo The Wall de Roger Waters. Muito mais do que um simples show musical, presenciar esta obra ao vivo é uma experiência audiovisual/multisensorial de grande impacto, difícil até de expressar em palavras. A tecnologia atual permitiu ao velho ex-líder do Pink Floyd materializar exatamente o que a sua imaginação criou há 30 anos atrás. A soma música + vídeos + efeitos especiais + som quadrifônico é simplesmente de tirar o fôlego. O interessante é que tudo é feito para amplificar a mensagem do álbum, aqueles sentimentos de angústia e isolamento tão presentes nas letras. Absolutamente independente, Waters usa seu show pra detonar a tudo e a todos: a banalidade da guerra, o sistema educacional, governos, corporações. Em plena forma do alto dos seus 69 anos, o velhinho detona até a si próprio, ao dizer que quando compôs The Wall pensava que a obra era apenas sobre ele mesmo, percebendo hoje que a obra é sobre o isolamento e a opressão que todos nós, seres humanos, experimentamos em nossas vidas. Enfim, tudo que posso dizer é que foi um privilégio ter presenciado esta que é a maior superprodução do showbussiness em todos os tempos, maior até que o show 360 do U2. Não por ser um megashow, mas por conter uma megamensagem.
Poucos dias depois foi a vez de conferir os suecos do Opeth em sua segunda visita a São Paulo. Realizado no Carioca Club, o show não poderia ser mais intimista. O lugar estava tomado por cerca de 3 mil fãs, daqueles que conhecem cada nota tocada pela banda. Isso somado ao som de excelente qualidade e uma iluminação bem anos 70, criou um clima absurdamente envolvente e empolgante. No auge da carreira, a banda optou por tocar material mais recente e músicas mais climáticas e “viajandonas” na primeira hora, deixando o peso para os quarenta minutos finais. Impossível não destacar as performances do batera Martin “Axe” Axelrot, um mestre da quebradeira jazzística, e do guitarrista Fredrik Akesson, fritando num minuto e fazendo um solo melódico à David Gilmour no outro. Tudo com o gênio Mikael Akerfeldt no comando, muito bem trajado com uma camiseta do Sarcófago, do mesmo jeitinho de sempre, mesclando vocais melódicos e angelicais com guturais agressivos, abusando do bom gosto e de timbres matadores com a sua guitarra e sendo um verdadeiro comediante de stand-up entre as canções. Musicalmente magistral, com impecáveis passagens melódicas de mellotron, o Opeth fez o melhor show que vi neste ano. Pra você ter uma ideia do clima, dê uma olhada no vídeo abaixo, com o povo aplaudindo até as partes instrumentais da música. Demais!
Pra finalizar a saga prog do mês, conferi as duas bandas que deram o tom do metal progressivo nos anos 80, Queensryche e Fates Warning, essa última com o reforço do batera Mike Portnoy. A primeira boa surpresa foi o bom público presente no HSBC Brasil, que se não chegou a ficar lotado, estava bem cheio. Outros destaques ficam para a infraestrutura, a acústica e o tratamento da equipe da casa, tudo impecável. O show começou com o Fates Warning, que foi recebido com muito carinho pelos fãs. O repertório foi bem distribuído pelos álbums da banda, com destaque para o disco Parallels, que teve 4 músicas executadas. Como não poderia deixar de ser, Mike Portnoy deu um show à parte, tocando demais e esbanjando alegria e carisma. Bom show, que seria ainda melhor caso o público conhecesse mais o repertório da banda. De qualquer forma, um aperitivo perfeito para os headliners da noite, que começaram seu show com Get Started, abertura e melhor música do seu último e fraquíssimo disco, Dedicated To Chaos. Como a tour era comemorativa dos 30 anos de banda, o grupo tocou pelo menos uma música de cada um dos seus discos. Além da habitual classe e competência de Geoff Tate e Scott Rockenfield, o destaque vai para o guitarrista Michael Wilton, que desde a saída de Chris De Garmo tem assumido todas as partes mais complexas de guitarra, mandando superbem. O show teve hits como Silent Lucidity, Jet City Woman, Empire e I Dont Believe In Love, as experimentais Screaming In Digital, NM 156 e The Right Side Of My Mind, clássicos absolutos como Walk In The Shadows, The Lady Wore Black, Take Hold Of The Flame e Eyes Of A Stranger. Não tinha como ser ruim. Quem sabe um dia os caras voltam para realizar o sonho de 11 de cada 10 fãs e tocam o Operation Mindcrime na íntegra para os brasileiros.
O histórico mês para os fãs de prog ainda teve o mestre Steven Wilson, do Porcupine Tree, em show de sua carreira solo, mas infelizmente neste eu levei falta.
Sempre subestimado pela mídia, o rock progressivo continua quebrando barreiras e conquistando novos fãs, mostrando que no fim das contas a liberdade musical é o que realmente interessa.
Fabian Oliveira
In: Rock|Shows no Brasil
22 Apr 2012
Não é tarefa fácil falar sobre a passagem do Foo Fighters pela América do Sul, mas alguém que não resenhou do sofá de casa tem que fazê-lo. Não acho que seja fácil porque há um (talvez excessivo) hype pairando hoje em dia sobre a banda, não por conta dela ou de seus trabalhos, mas sim por conta dos seus fãs meio xiitas.
A primeira premissa básica é: sim, é verdade que Dave não cantou bem e que sua voz atualmente não faz jus a uma plateia de 2 mil pessoas, quanto mais grandes eventos como foram esses shows por aqui. Já tá dito, não deixo de avaliar isso no decorrer do texto, ok? Pode considerar, meu caro leitor, que eu já reconheci que ou a garganta dele está momentaneamente prejudicada ou ele é mesmo um mal vocalista. Não posso afirmar, mas reconheço que foram horríveis seus gritos e tentativas de dar harmonia a uma voz terrível nesses shows. Já vi shows em que ele cantou bem, mas dessa vez… foi incrivelmente horrível e ele culpa o tal do cisto nas cordas vocais, os desafetos da banda o acusam de simplesmente cantar mal. Quem saberá dizer? Eu realmente admito ambas as possibilidades.
A segunda premissa também é merecedora de destaque: não, o Foo Fighters não vai salvar o rock, como Leonardo DiCaprio não salvou o Titanic. Ambos (Leo Di e FF) apenas dão contornos mais belos e aumentam a arrecadação do espetáculo, angariando milhões de espectadores, para aquela coisa que não é novidade para ninguém. Mas nenhum deles faz milagre. São “entertainers” e, pode apostar, pelo menos nisso o FF anda fazendo tudo certinho.
A terceira e última premissa é a de que eu procurei ser o mais neutro possível mas, entenda, se você de gosta de boa música ao vivo e gosta da magia compartilhada por grandes multidões num show de rock, quando 60 ou 70 mil pulam e se esgoelam descontroladamente ao seu redor, a neutralidade não é algo tão fácil de se manter. Ninguém é realmente neutro com coisas que te fazem gargalhar descontroladamente.
E assim começo a falar sobre o que vi: a energia gerada nas duas noites de Buenos Aires e na noite de São Paulo é fora do comum. Um fã de rock e frequentador de shows pode passar anos à procura do que ocorreu aqui e não vai achar. Por alguma razão, o ar messiânico desse cara que tocou no Nirvana é irremediavelmente intrigante.
Basta dizer, a comprovar isso, que quando ele largou a guitarra na 2a noite de Buenos Aires para tocar a bateria (o que se repetiu em SP) a comoção da plateia foi generalizada e até a incrível tormenta (14 pessoas mortas no temporal e milhares de árvores, casa e telhados destruidos) ficou em segundo plano. Dave Grohl atingiu um status de respeito e admiração que, sozinhos, talvez sejam capazes de superar até o cisto na sua garganta em termos de “o que fica na memória de quem estava lá”.
Eu mesmo, confesso, apesar de atento e rigoroso nos shows, só fui sentir MESMO o quanto estava errada a cantoria ao ouvir os shows depois, em mp3.
O atual show do Foo Fighters, essa banda que está no topo das paradas com Wasting Light e ganhando todos os prêmios possíveis, prescinde de um bom vocalista. A presença de palco de Dave é suficiente para desviar a atenção do que se ouve desde sua laringe. Taylor Hawkins soca a bateria como poucos, a nitidez, pegada e técnica que saem dali são incomuns! Pat Smear no palco é uma homenagem aos roqueiros da estirpe do Nirvana, sua atitude e imagem são um tapa na cara do guitarrista oficial, Chris Shifflet, “bonitinho mas ordinário”. Nate toca seu baixo com competência mas sem qualquer tipo de desafio. A banda inteira, na verdade, é um prelúdio para a atuação de Dave Grohl, os sonoros petardos do baterista e, não se engane, uma seleção de hits de fazer inveja a Paul McCartney!
O ápice do show do Foo Fighters é, sem a menor dúvida, a sinergia e inte(g)ração com o público. Todo show dos caras parece ser jogo ganho na escolha do setlist. Talvez o incauto não perceba até estar lá na galera, mas é muita música não apenas conhecida, mas também respeitada em algum momento e local. Pode-se dizer que a maioria dos presentes não pagam pra ver os músicos, mas sim para ver as músicas que marcaram sua vida, de alguma forma, em alguma época. Toda música no show do caras é relevante para alguém, e é isso que buscam os melhores songwriters. Dave acerta em cheio na criação das suas músicas, tão em cheio que o coro da multidão, certamente conhecedora de tudo que se ouve ali, fala muito mais alto que sua própria voz.
Na minha opinião a maioria das letras e temas tratados é somente média. Não são universais, eternas, obras de arte para marcar a geração. Mas são competentes, relativamente simples de se “pegar” ou captar e, cá entre nós, talvez até pela velada superficialidade, de fácil integração para qualquer homem ou mulher comum. Quem não teve dúvidas sobre desistir de tudo ou ficar e batalhar (Times Like These), sobre querer que o sentimento dure pra sempre (Everlong), sobre que tipo de gente respeita (My Hero)? Quem nunca se viu em situação dificil e tem boa vontade para melhorar (Walk) ou desejou que seu parceiro ou companheira fosse um pouco mais dedicado (Best of You)? Quem nunca?
Com maestria talvez nunca explicada, Dave Grohl é um fazedor de hits como muito poucos. E são esses hits, relativamente fáceis aos ouvidos e às mentes das gentes, que traduzem a magia de um show do Foo Fighters. Não, não é o visual, a técnica, a força, a qualidade das harmonias ou a habilidade musical dos caras. É esse sentimento de conjunto, de consagração, de simbólia consagração coletiva e real sinergia que cada um dos presentes compartilha, o que faz do show algo memorável.
E os três shows foram bem diferentes um do outro. Digamos que Buenos Aires 1 receba nota 6, Buenos Aires 2 nota 9,5 e São Paulo nota 8,5, temos uma banda de média 8. E talvez seja isso mesmo, nem pra ser a melhor de todos os tempos, nem pra xingar.
O primeiro show em Buenos Aires não leva nota alta porque a banda, apesar de bem tecnicamente, não conseguiu levantar todo mundo do chão. Talvez isso tenha ocorrido pela péssima qualidade do audio pra quem não estava na pista, talvez porque estivessem simplesmente sem motivação para sacis puladores naquela noite. Talvez porque não se vendia cerveja no Festival em que tocaram que levava o nome da principal cerveja argentina. “Increíble!”
O segundo show, porém, devido ao conteúdo épico trazido pela tormenta que assolou a capital argentina, foi… legendário! A referência mais clara que me vem à cabeça é o famoso Ramones e Sepultura na Pedreira em 94, um show que marcou de forma indelével uma geração inteira de roqueiros curitibanos. Lá em Buenos Aires, com equipamento de iluminação de palco queimado, proteção de gramado voando na cabeça dos desprotegidos e TODAS as barraquinhas de venda e de merchandise voando na tormenta como se fossem meras folhas de outono, os caras resolveram acender a iluminação de futebol do estádio River Plate, dando ares de dia ao show. Plateia iluminada, palco apagado. E com isso foi possível ver – e sentir – algo realmente histórico: uma nação de umas 65 mil pessoas inteiramente entregues, em doação total, ao que acontecia naquele instante. Pude contar, em determinados momentos, 6 imensas rodas de pogo (graças em parte à iluminação e em parte à admirável empolgação da banda no palco) com suas 1000 a 1200 pessoas em cada uma. Algo realmente GRANDE!
O show de São Paulo, com voz ainda pior, teve duas grandes vantagens em relação aos dois shows na Argentina: mais jams e mais Joan Jett. Belíssima, aliás, a participação da senhora I Love Rock´n´Roll. 80% do repertório no Brasil levou arranjos diferentes, mais detalhes e músicos mais dedicados do que nos outros shows… ponto muito positivo, que poderia tornar o Lolla o melhor show deles na tour. Só não foi porque, apesar de muito empolgados e dedicados, os brasileiros não são argentinos. Argentinos são muito mais roqueiros do que nós e não têm a menor vergonha de cantar, cantar, cantar… eles vocalizam os riffs de guitarra, eles cantam os refrões como se não houvesse amanhã, eles deixam a banda perplexa, calada, embasbacada, cantando (só no gogó e sem auxilio de qualquer instrumento) por vários minutos o refrão de uma música depois que ela acaba. Na verdade, o pessoal do Lollapalooza até que fez bonito e parecido, mas em dimensão muito menor do que se viu em Buenos Aires.
Em suma, então tivemos 3 shows muito diferentes: um normal em que a galera não foi muito boa, mas a banda sim (tecnicamente falando). Um completamente sem pretensão, sem luz de palco (!) e com o mundo caindo em tormentas de 120 km/h no qual, sem dúvida, cada um dos presentes (banda inclusa) se entregou acima de 110% e fez, portanto, algo realmente histórico. E um no Brasil cheio de inovações, muito alegre e bem levado, que talvez seja justamente a média da banda, um pouco aumentada por um excelente público, como é o brasileiro (foram 75 mil pessoas no Lollapalooza SP).
Acredito que Roger Waters tenha feito 9 shows seguidos na Argentina e outros 4 no Brasil com menos instabilidade e mais técnica… assim como o Pearl Jam, há poucos meses, fez 4 shows bem diferentes entre si no Brasil e outros mais diferentes ainda na Argentina, no Chile e no Peru, e todos esses foram grandes shows! Talvez melhores que o Foo Fighters. Provavelmente melhores que esses Foo Fighters. Mas, cá entre nós, a festa roqueira comandada por Dave Grohl é memorável. Se o rock é diversão e a arte da música é mesmo algo que visa mais a obter sorrisos do que aplausos, compreenda, eles conseguem e fazem isso com imensa propriedade. Mesmo não sendo o Foo Fighters a última Coca gelada do deserto, quem vai ao seu show não fica com sede de jeito nenhum!
O Foo Fighters, como eu disse há algumas semanas, antes disso tudo ocorrer aqui no quintal de casa, não é o Barcelona do Messi nem a Holanda de Cruyff. Não entra em nenhum campeonato de alto nível como favorito. Mas, bem como o Coritiba de 85 e o Atlético de 2001, a quem ninguém dava uma meia furada antes do campeonato, se deixar jogar os caras se agigantam… e ganham jogos importantes, apesar de perder alguns relativamente fáceis… Mas nesse ritmo, se os grandes vencedores de outrora deixarem, eles vão levar o caneco…
Os maiores destaques dos 3 shows foram, sem a menor dúvida, o coro de “Best of You” e a fantástica “Everlong” fechando a apresentação. Pessoalmente, elejo a simples visão e audição de Dave Grohl na bateria (que aconteceu em “Cold Day in the Sun” no 2o show de Buenos Aires e em SP) e o clima Nirvanão de”White Limo” como momentos mais marcantes. “White Limo”, a proposito, que difere tanto do resto do catálogo da banda, é realmente sensacional ao vivo, sujona e na pegada como acredito que Kurt Cobain tenha ensinado ao guri Dave anos atrás. Se você é um desses que adora o Nirvana mas não dá bola pro FF, dê uma chance a White Limo ao vivo! Tambem destaco a incrivel voz e presença de Joan Jett (que só em SP tocou “I Love Rock’n'Roll além de “Bad Reputation”) e os arranjos ao vivo de “These Days”, que Dave mesmo chegou a dizer em Buenos Aires 2 (a música não foi tocada em SP) ser a sua música favorita! “Dear Rosemary”, dentre as novas, é muito boa no show e, de mais diferente mesmo, teve “Wheels” acústica somente na primeira noite de Buenos Aires.
A propósito, o show real e verdadeiro dos caras tem um cuidado e capricho de produção bem maiores do que essa versão express que trouxeram para os Festivais daqui. Quando o show é só deles, o palco é muito maior, melhor e mais cheio de detalhes, inclusive LEDs e telões no chão que dão uma sensação visual muito boa para quem vê de cima, como se a banda tocasse de pé numa tela de cinema na horizontal. Não teve nada disso, nem da imensa passarela em que Dave toca 3 ou 4 acústicas sozinho lá no meio do povão, nos shows oficiais deles. Tudo bem, por aqui teve mais rock’n'roll e, pelo menos na memória dos presentes em Buenos Aires 2, fica pra sempre a sensação de que esses caras aí podem fazer um show literalmente legendário sem nem precisar de iluminação no palco. Nem sempre, pelo jeito, mas “pode” acontecer!
Todos os shows também tiveram homenagens e referências interessantes. “In The Flesh?” do Pink Floyd tocada inteira e snippets de Queens of the Stone Age e Iron Maiden arrancaram gritos do pessoal!
Em suma, senhoras e senhores, foram três shows dignos da banda cujo disco foi o mais premiado e falado de 2011. Quem só viu um deles pode ter achado pouco. Ou demais da conta… depende mesmo é de qual show foi presenciado. Quem viu todos sabe que é uma banda instável e que pode acontecer de um show não empolgar. Mas entre o SHOW que eles fazem e a reprodução automática de músicas exatamente iguais ao disco gravado, sem nem mesmo mover os pés para os lados, como fez o Arctic Monkeys em Buenos Aires 2 e no Lolla, serei sempre favorável ao SHOW. O resto é mera apresentação. Foo Fighters, queira ou não, é O SHOW da atualidade.
Hildo Junior
Dizer que o Captain Crawl foi uma espécie de super-herói da internet talvez seja exagero – ou talvez seja pouco, mesmo, considerando a estranha fase de transição, no que diz respeito a música, bandas e discos, pela qual passamos.
Fiquei muito triste quando meu grande amigo Pedro Gonzalez – que foi quem me ensinou que existia o Captain Crawl – me avisou, na semana passada, que o site havia deixado de funcionar. Ao invés de uma eficiente página de buscas (eu achei 3 de cada 5 discos que procurei, se fosse chutar uma média), lá há agora apenas um aviso dando conta de que “problemas legais” e pressão de grandes bandas e gravadoras forçaram o serviço a deixar de existir.
No aviso, diz-se que uma das “bandas grandes” a reclamar seria o Coldplay – e se eu já achava o som deles uma bosta, agora passei a ter razões pessoais para odiá-la.
O Captain Crawl não provia conteúdo – pelo menos não diretamente. Era um “search engine” que buscava, em blogs, não apenas arquivos compactados contendo discos inteiros, mas resenhas, vídeos e artigos sobre música. Para quem tem preguiça de utilizar serviços de “torrent” (o que envolve algumas pentelhações de configuração etc.) é (era) a melhor coisa depois do Napster. Aliás, o sistema de blogs que direcionam para arquivos armazenados nos 4shared da vida – do qual o Captain Crawl era uma espécie de pedra de roseta – resgatam um pouco (ainda que muito pouco, admito) da experiência de ir a uma boa loja de discos. Raramente encontrei um post que apenas direcionasse a um link do magaupload ou congênere. Não raro, há (havia) excelentes resenhas do disco em questão, vídeos, links para outros textos, fotos e muito material interessante. Muitos desses blogs disponibilizam apenas material raro e que não havia sido lançado em CD (a exemplo do também finado Loronix), o que torna a atividade mais “legítima” aos olhos de SOPAS e PIPAS da vida. Afinal, se o download não concorre com um disco que está nas prateleiras da lojas, ninguém está perdendo.
Aliás, se alguém está perdendo é o artista ou seus sucessores, no caso de discos velhos e raros, na medida em que não recebe royalties pelo disco – que não está sendo vendido porque não é mais editado. Culpa, portanto, da gravadora.
Tudo isso, entretanto, está virando uma discussão superada e destinada a rodas de saudosismo de pessoas que ainda se lembram da época em que não existia internet, quando o monopólio da distribuição de música era das gravadoras e – ao menos nos países sérios – o artista podia viver regiamente só dos royalties de seus discos. (No Brasil, é, aparentemente, outra história. Lobão e Tim Maia sempre disseram que nunca recebiam o que deviam receber). Agora, a mamata acabou.
É verdade que “o artista deve ir onde o povo está”, e o grande beneficiário dessa mudança no esquema das coisas é justamente o povo, o público de bandas e artistas ainda em atividade (a exemplo do próprio Coldplay, um dos responsáveis pela morte do Captain Crawl) e que precisam pagar as contas e, no mais das vezes, manter um estilo de vida nababesco e acostumado a polpudos cheques mensais preenchidos pelas recém-extintas gravadoras.
Já é possível fazer um balanço do impacto do fim dos direitos-autorais-enquanto-grandes-cheques. Até mesmo o Mark Farner, há anos fora do Grand Funk Railroad e fazendo shows nos quais toca os clássicos da banda com um bom grupo de apoio, veio ao Brasil, e tocou em mais de uma cidade. O Metal Open Air propiciou a muitas bandas de metal de porte médio como Sodom e Exodus verdadeiras tous sul-americanas, com várias datas no Brasil, shows na Bolívia, Colômbia, Peru etc. Bod Dylan tocou por aqui a nada módicos R$ 900,00. Chick Corea, os JB’s e Maceo Parker vão tocar em São Paulo em Junho.
Mais do que isso, é possível acompanhar pelo twitter a rotina alucinada de shows de bandas veteranas como Anthrax (30 anos de carreira e 10 discos) e Sepultura (25 anos de carreira e 12 discos), narradas pelos seus integrantes de maneira quase sempre bem-humorada: passagens constantes em alfândegas, jet-lag permanente, desfrute de duas estações do ano na mesma semana etc.
A título de comparação, ainda que grosseira, pela lei brasileira homens podem se aposentar após 35 anos de contribuição – raros são os exemplos de quem, a tão pouco tempo de parar, esteja trabalhando tão duro, como se ainda estivesse no começo da carreira.
Mas, de certa forma, é como se estivessem – e tivessem que refazer o longo caminho que, um dia, os fez chegar ao ponto em que gordos cheques mensais parece que iriam garantir sua tranquila (e precoce) aposentadoria, fazendo shows apenas por diversão, quando lhes desse na telha. Talvez esse fosse o sonho dourado do Coldplay, frustrado pelas radicais mudanças ainda em curso e que, aparentemente, vão obrigar os artistas a trabalhar muito mais do que imaginavam quando se convenceram, no curso de sua carreira, da própria genialidade.
Como as fitas Betamax, A-tracks, MD’s e outros formatos que foram engolfados por outras tecnologias, o Captain Crawl foi uma baixa da guerra pelos royalties e pela prevalência da lei do menor esforço pretendida por certos artistas (convencidos de sua genialidade, ou simplesmente por má-fé e preguiça) e pelas gravadoras (de olho nos lucros). Por mais saudade que deixe, é um mártir da idéia de uma nova relação entre artistas e o público – ou nem tão nova assim. Já houve um tempo, muito antes da internet, em que sequer discos existiam, e o artista realmente ia onde o povo estava ou morria de fome. O retorno a essas tradições não será benéfico apenas para o público, mas também para as bandas: quem há de achar ruim viajar o mundo com tudo pago, ficando em hotéis entre ótimos e razoáveis, tocando suas próprias músicas e recebendo por isso? Além disso, shows frequentes mantém os músicos com os cascos afiados, sendo sempre lembrados por seu público e com melhores chances de conquistar novos fãs.
No fim das contas, é vergonhoso para o Coldplay figurar como algoz do Captain Crawl. Diz muito sobre uma geração que atribui importância demais a si própria, pouca a seu público e a uma verdadeira ética de trabalho. Sobretudo é ridículo pois a mudança contra a qual o Coldplay e as gravadoras se insurgem é irrefreável. Ainda não se chegou a uma solução definitiva para a questão do formato (ou ausência dele) e talvez isso nunca seja obtido. O fato é que, para ganhar a vida, as bandas agora vão ter que fazer isso ao vivo, sem intermédiários, e onde quer que se pulico esteja.
Quanto ao Captain Crawl, se ele fosse um super-herói, teria poderes de localizar discos perdidos em arquivos empoeirados de gravadoras e selos que não existem mais, mostrando o caminho aos interessados – isso até tombar pela kriptonita dos Lex Luthors entronizados em escritórios de empresários e atravessadores. Mas, não tema: de uma maneira ou de outra, e igualzinho ao Super Homem, ele voltará.
Thiago Pacheco
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7 Apr 2012
Lazy: Bracket é a banda de punk rock / hardcore californiano preferida de muita gente boa, como o Fat Mike do NOFX. Tudo bem, o Fat Mike não é gente boa, mas é dono de uma puta banda e de uma puta gravadora, a Fat Wreck Chords. Conheci o Bracket em uma fita cassete (lembram?) gravada pelo amigo Henrique Guerra (ex – EX LAX). De um lado Bracket, do outro No Use for a Name. Difícil não ficar amigo de um cara que grava uma fita dessas. Falando do Henrique, lembrei-me de uma música do EX-LAX, regravada depois pelo Carbona (do outro Henrique, o Badke) chamada I Hate GA. Essa também deveria estar na minha lista. Certeza.
Freedom Slaves: quando me mudei para Curitiba, em 1992, o Nico me gravou uma fita com um show acústico de uma banda chamada Tesla. Five Man Acoustical Jam. Coisa do Nico. Acabei gastando a fita de tanto escutar as versões acústicas de Lodi, Signs, Mother´s Little Helper e We Can Work it Out. Quis conhecer mais da banda e gravei Psychotic Supper, também do acervo do Nico. E é lá que está esta Freedom Slaves, rockaço de primeira linha.
Plug in Baby: eu conheci o Muse voltando de carona com meu cunhado para a casa dos meus sogros, após uma caminhada longa demais, quando faltou fôlego para voltar. Tio Bulu, como hoje ele é conhecido pelo meu filho, salvou a pátria e sem querer me apresentou a uma das minhas bandas preferidas. Até hoje eu não sei de onde ele tirou o Muse, numa época em que Muse não era o Muse que é hoje. Logo em seguida, testemunhei Lúcio Ribeiro e outros bam bam bams da crítica musical festejando a banda seguidamente. Quando os caras já estavam a caminho de virar superstars e eu já era fãzaço da banda (não sou dos que deixa de ser fã porque a banda virou mainstream), comprei dois ingressos para o show deles em São Paulo. Como minha esposa engravidou logo em seguida, não pode ir ao show. No lugar dela, foi o Fabian, amigão e colega de Fone. Esse show inaugurou uma tradição de ingressos comprados, notícia de gravidez, show perdido pela Tati, mas isso é outra história.
Charlie Brown’s Parents: não foi nenhum amigo que me apresentou essa. Foi a MTV, na época em que MTV tinha música. Mais especificamente foi o reverendo Fábio Massari. Não sei que fim esses caras levaram, mas quem faz uma música dessas merece respeito. Ah, o nome da banda, Dishwalla.
As Wicked: do disco And Out Come the Wolves, do Rancid. Dispensa comentários, por ser o melhor disco de uma das melhores bandas de punk rock da atualidade. E tem o na na na na na do final, que é simplesmente o melhor.
Todo final deveria ter esse na na na na do Rancid. Porque é um final com cara de recomeço, como o final de um dia de trabalho, o final de um livro, um simples final de semana. E esse foi o final da minha jornada de 5 dias e 25 canções. Um final conveniente, para que este texto (ou estes 5 textos, ou 25, sei lá) pudesse ser escrito, porque na verdade continuo descendo a pé para o trabalho, e não fiquei um dia sequer sem escutar minhas 5 canções, e sem lembrar de histórias de todos os tipos, e de me emocionar com elas. No final das contas, não existe final das contas.
Rodrigo Acras
Neste quarto dia de caminhada, o randômico foi mais randômico do que nunca. Se nos dias anteriores ele me presenteou com surpresas de tirar o fôlego, algumas até de se duvidar, desta vez ele apostou no ecletismo. Vamos ver o que aconteceu.
Run to the water: Live é uma banda que eu conheci na MTV, através de um vídeo muito bacana (para a época) da música I Alone. Desde então tenho um carinho especial pela banda, mas só fui conhecer o trabalho deles para valer quando conheci minha esposa, fã de carteirinha. Todos os discos dos caras têm pelo menos três ou quatro perolas. Run to the water é do disco The distance to here, quarto álbum da banda, de 1999. Não acompanho religiosamente a carreira da banda, não tenho todos os discos e não escuto sempre, mas quando esta música aparece, sempre comemoro. Ah, esqueci, o refrão é matador.
Yellow Ledbetter: sou dos que acreditam e defendem que as melhores músicas do início da carreira do Pearl Jam não estavam nos álbuns da banda. Quer ver? Breathe, State of Love and Trust e Sad, sem dúvida entre as melhores da história da banda só apareceram em singles e na trilha sonora do filme Singles (sem trocadilho, por favor, não sou disso). Mas é Yellow Ledbetter a campeã do ranking das “não oficiais”. Lado B de Jeremy (como é que pode?), essa música é tão adorada pelos fãs da banda que virou ato oficial de encerramento de todos os shows dos caras. Como a maioria das letras de Eddie Vedder, ela não diz muita coisa, mas combina com a música perfeitamente. Escutei muito essa música, toquei no violão (nunca até o final, principalmente porque não conseguia “tirar” a letra inteira) e, obviamente, a imortalizei no meu ranking das eternas.
Barefoot by the cherry tree: é obvio que, como qualquer ser humano normal, que gosta de rock’n’roll, curto muito Black Crowes, apesar de não ser fã incondicional. Mesmo assim, quando New earth mud, disco solo do vocalista Chris Robinson saiu, achei prudente baixá-lo. Não tinha filho ainda naquela época, o que significa que podia lavar a louça no domingo pela manhã, com os fones no ouvido, sem me preocupar se ele iria acordar e a Tati iria precisar de ajuda. Foi exatamente assim que descobri Barefoot by the cherry tree, sem brincadeira uma das músicas mais lindas que já escutei. Lavando as taças de vinho e a panela cheia de molho poivre do jantar que tínhamos feito na noite anterior, escutava pela primeira vez uma história de amor daquelas que começa desde cedo. É uma das poucas músicas que eu lembro ter adorado desde a primeira vez, e que parece que estou escutando pela primeira vez até hoje.
Misery: Infernal Love, 1995, melhor disco do Therapy, ponto. Poderia ter escolhido qualquer música, mas por um motivo muito banal essa é minha imortal. Simples, baixe a música, escute-a desde o início e preste atenção à virada dos 1:55. “Fuck you waste my time, and you tell me that you´re broken hearted now!”
Guitar: “I´m seating by the window of your 32nd floor apartment. Waiting for your phone calls all to end. I’m sitting watching wind blow. Watching time go. Watching cars go by. I’m waiting for these memories to begin.” Sério, não sei por que eu insisto em escrever. Deixa pro Cake.
Rodrigo Acras
In: Rock
26 Mar 2012
Foi por indicação do colega foner André Ganso que acabei achando um texto muito interessante de Carlos Eduardo Lima sobre o Foo Fighters, texto que pode ser encontrado aqui. Em referência ao que o jornalista entende por um hype exagerado sobre o Foo Fighters, o assunto me despertou para algo que, confesso, ainda não me tinha passado pela cabeça: o Foo Fighters é o nome mais próximo da expressão “Gigante do Rock” porque é mesmo gigante ou porque, perto de tanto anão, quase qualquer um seria gigante?
Chamando esse paradoxo de “Fator Fighters” e explicando que os fãs da banda, até sem culpa, acabam por enxergar mais grandeza do que efetivamente existe na companhia musical liderada por Dave Grohl, o texto é provocante e recebeu muitos comentários, foi objeto de grande debate.
Pois eu, analisando com um pouco mais de neutralidade do que talvez devesse, acabei compreendendo e até dando uma certa razão para o autor. Não no sentido de reduzir o Foo Fighters, mas no sentido de coloca-los no seu verdadeiro lugar. E esse lugar não é, ainda, o panteão máximo das lendas eternas do rock. É na escadaria que chega até lá.
Para mostrar melhor a perspectiva pela qual observo a questão, uso um paralelo futebolístico:
O Nirvana, campeão incontestável no mundial interclubes da FIFA, se desfez logo após seu principal título, deixando um excelente jogador sem time e o espaço de favorito ao título do ano seguinte vago. Isso aconteceu em meados dos anos 90 e esse jogador sem time era o (então) baterista Dave Grohl.
Já detentor de um campeonato mundial interclubes da FIFA, obtido em sua juventude e na condição de coadjuvante de Kurt Cobain, o descontraído e tranquilo Dave veio a formar a banda de um homem só que chamou de Foo Fighters sem pretensão, mais pra passar o tempo antes de encerrar a carreira… um time pra jogar a Segunda Divisão no campeonato nacional sem pressão e sem maiores anseios. Os anos foram passando, esse time foi se consolidando como mediano e até competente, mas… como um time que nunca tinha participado da 1a Divisão, sempre jogou bem para os padrões da Serie B. Não ganhava muito título mas sempre disputava, tava ali nos Top 5, era um time que aparecia bem… para a 2a Divisão.
Muitos anos mais, muitos discos mais, o Foo Fighters foi crescendo até que, por razões diversas, acabou sendo grande demais pra uma Serie B… Algo como o Palmeiras ou o Corinthians de hoje jogando a 2a Divisão, no Brasil, ciente de que deveria estar na 1a Divisão, mas sem nunca achar um técnico ou um esquema de jogo que funcionasse para ganhar a Série B e subir de Divisão por mérito, para o grupo dos melhores times. Com o famoso show de Wembley em 2008, mais por uma motivação fenomenal da sua fiel torcida e por ter recebido reforços de última hora no ataque da estirpe de Jimmy Page, do que por montar um time impecável, subiu pra Primeira Divisão do rock com um show impecável, sold out, maravilhoso, daqueles que ficam eternizados. E Dave ganhou o título, levantou a taça, foi o MVP e artilheiro do campeonato. Pra onde ir então?
O Foo Fighters, que nasceu pra jogar pelada e se divertir, acabou meio sem querer ganhando a estrela no peito que todo time almeja no caminho do sucesso, sem liderança invicta nem goleadas históricas, mas todo mundo já devia saber, ali, que aquele artilheiro Dave Grohl estava numa boa fase… uma fase daquelas em que Romário estava em 1994. E isso, as vezes, atrai um bom técnico, um bom patrocinador, um aumento na base da torcida… coisas que alimentam um time.
Acredito que o Foo Fighters subira de divisão ainda sem muita pretensão, sem almejar o posto de campeão da 1a Divisão direto, já no campeonato seguinte.. Poderia entrar nessa Séria A pela primeira vez lutando unicamente pra não cair…
Sem nem mesmo se considerar um dos favoritos para aquele campeonato maior e mais duro que se iniciaria no meio das grandes bandas de verdade do rock mundial, mas com o ritmo de jogo que estava e o momento favorável do artilheiro, o FF começou a perceber que, se os grandes times mesmo, aqueles cheios de trofeus, estavam desorganizados ou em renovação, mesmo sem jogar o fino da bola daria pra, quem sabe, almejar uma vaga na Libertadores. E o Foo Fighters de 2009 passou a entrar em campo focado, forte, concentrado, impressionando… como poucos times médios ou pequenos já conseguiram até hoje. Era, então, sem dúvida, a surpresa do campeonato. Ninguém mais achava que o Flamengo, Grêmio, São Paulo, eram os times pra se ver em campo, mesmo com multiplas Libertadores. O underdog da vez era esse Foo Fighters, o time que nunca tinha ganhado nada além da Serie B mas, por acaso, enchia os olhos a cada jogo que fazia. E passara a ter a admiração de todas as torcidas, meio como o Ameriquinha no Rio. Passou a ser o “segundo time” de todo mundo. E segundo time é isso mesmo, no futebol e no rock: aquele que a galera curte sem morrer, aquele que atrai mais simpatias do que ódio… aquele que, quando ganha, deixa todas as torcidas com um leve sorriso.
Os medalhões foram se demorando a se organizar, arrumar a casa e cuidar do futebol, deixando espaço pra um time sem muita pretensão engatar uma serie de vitórias e se credenciar ao campeonato. Mais ou menos como o Coritiba de 85, o Atlético Paranaense de 2001, o Criciúma do Felipão que ganhou a Copa do Brasil. E o que vemos hoje é esse time, que pode nao ser o melhor time formado no rock mundial dos últimos anos, mas pelo menos vem fazendo certinho seu papel e levando jogo após jogo, coisa que os grandes do campeonato, as vezes, não conseguem fazer, envoltos em retornos de craques duvidosos do passado ou com dívidas muito grandes e salário de plantel atrasado demais para jogarem tranquilos.
E sua torcida fiel, almejando o primeiro grande título, rende talvez mais loas do que devia ao Foo Fighters. O Fator Foo Fighters, então, é mais ou menos como o cara da torcida organizada do time que fecha os olhos para os outros jogos, as vezes vê o jogo do próprio time de costas, até… mais importante do que ver o jogo é animar, pular, gritar, fazer a festa… torcer mesmo! Hoje, mesmo não sendo a maior banda da história, o Foo Fighters conseguiu levar o pessoal que gosta da banda a tal nível de endeusamento, tudo sem pretensão e bem na boa, que os jogos são todos de casa cheia, com belissimos gols como “Times Like These” e “Everlong” em toda apresentação e, as vezes, geram até abalos sísmicos.
Não é a bola mais bonita do futebol, mas é a bola da vez. E por quê?
Porque, além de tudo isso, Wasting Light é um disco magnífico. Produção impecável e músicas de alto nível com zero momentos de baixa são parte da magia, mas o fato é que, sem dúvida, o timing de Grohl e banda para lançar essa obra-prima não poderia ser mais perfeito. Justo na entre-safra de outros grandes discos e enquanto as grandes bandas de verdade não produzem muito, o cara foi lá, chamou a responsabilidade para si e se preparou para bater o penalti mais caprichado da sua vida… claro, foi um golaço!
Não acredito que o Foo Fighters vá virar hegemônico, construir uma era de invencibilidade e mudar a história do futebol ou do rock. Talvez entre pra história com esse disco e pelo conjunto da obra, daqui uns anos, mas o fato é que esse Foo Fighters é só ele próprio no seu melhor momento… Não temos diante de nós a Holanda de 1974, nem a Hungria de Puszkas, a Argentina de Maradona ou o São Paulo de Telê. Esses sim mudaram tudo e entraram pra história. O Foo Fighters talvez entre pra história, é verdade, mas que me perdoem os mais fanáticos: não é time pra ganhar escultura de bronze no Hall of Fame. Ainda.
Nem o rock depende só desse time pros campeonatos que virão nos anos futuros terem sua beleza, ao contrário: acredito que o maior mérito desse time pode ser até mesmo a instigação aos próximos que queiram ganhar esse troféu, pois poderão perceber que não é preciso muita coisa… é preciso, sim, que seja bem feitinho e com capricho. Esse time Foo Fighters e sua torcida têm seu mérito, mas mesmo sendo insuficiente pra levar o artilheiro Dave Grohl e sua trupe ao panteão dos heróis, também não chega a ser destrutivo nem herege… e, pela lógica, tem o condão de, incomodando assim, estimular que outros, grandes de antes ou novos grandes, também venham a caprichar mais.
Na conjugação do Fator Foo Fighters com o Futebol, só quem perde mesmo é o fã xiita dos times grandes que andam perdendo terreno e vivem de seus passados gloriosos, mas não têm sido muito constantes no presente. Todo fã da arte, porém, seja no futebol ou no rock, que consegue manter-se neutro e aberto para o que estiver aparecendo de bom noutros campos, mesmo não tendo o emblema do time preferido no peito, pode curtir a realidade.
Como estarão fazendo centenas de milhares de nós entre 1o e 7 de abril nesta America do Sul, com os 4 shows do Foo Fighters que, talvez, tragam um pouco mais de atividade sísmica. Como o bom rock de arena se propôs a fazer em algum momento, mas parece que esqueceu.
Hildo Junior
Não é minha intenção fazer algum tipo de tributo ou reconhecimento, apesar do merecimento indiscutível. Só queria lembrar a todos que existe, aqui em Curitiba, uma entidade chamada Barulho Records.
Criada e capitaneada pelo amigo Júlio Linhares, ex-guitarrista do lendário Pinheads, o selo/loja de discos de punk rock surgiu para divulgar as demos do próprio Pinheads e outras bandas amigas.
O primeiro CD lançado com o selo Barulho foi o registro de estreia da banda Confusion. Devemos ao Júlio, meus ex-companheiros de banda e eu, pela confiança e pela aposta no nosso som. Tenho recordações ótimas daquela epoca em que estávamos preparando o lançamento. Lembro também do dia em que consegui convencer os pais de um vizinho de prédio, um guri de uns 12 anos, para deixá-lo ir conosco e servir de “modelo” para uma sessão de fotos que ilustrou Punk Rock Stamp, o segundo lançamento do selo e primeira de uma série de coletâneas de bandas iniciantes. Para se ter uma ideia, foi neste que surgiram Carbona, Sugar Kane e Noção de Nada, todas com carreiras importantes no underground punk rockeiro. Tive a honra também de tocar com o Júlio, com nosso amigo DJ Mauricião e outras figuras da cena da cidade na banda Hülk, que saiu na terceira coletânea.
Depois, com os compromissos mundanos da vida de adulto, me afastei um pouco do Júlio, da Barulho e saí do Confusion, que ainda está por aí. De qualquer maneira, hoje acordei cedo, fiz as contas do mês, li o jornal e resolvi escutar música. Quando cheguei na minha coleção de CDs, dei de cara com o Punk Rock Stamp e percebi que já estava atrasado em escrever sobre a Barulho e seu heroico capitão.
Um pouco mais de história aqui:
http://www.barulhorecords.com.br/historia.htm
http://www.punknet.com.br/entrevista-barulho-records
Rodrigo Acras
Na tradição judaico-cristã, que direciona os rumos da nossa sociedade, convencionou-se que o rock, especialmente quando mais “pesado”, é o som do Inferno. O estilo musical do capeta. A trilha sonora do tinhoso. O som ambiente preferido do Diabão. Estabeleceu-se que no rock é que estão os acordes do demônio, os riffs de Lúcifer, os tambores do mal, as trombetas do apocalipse e o início do fim do mundo.
Não vou entrar, nesse pequeno trabalho, no mérito da tradição e nem comentar sobre o porquê de vivermos, hoje, num mundo em que o rock é associado ao inferno e os roqueiros ao Diabo, por outro lado, vou pedir licença poética para me imaginar vivendo nesse inferno e, com um pouco de esforço, aprendendo mais sobre ele e seus frequentadores.
Tudo começa na ante-sala do inferno. Se um dia estiver a ponto de ser chamado para adentrar pelos portais das chamas das trevas, acredito que na espera ouvirei Metallica. Os riffs extremamente sonoros e precisos de Kirk Hammet começam a demonstrar que a coisa ali dentro vai ser pesada, mas nem por isso desesperadora. Mr. Hatfield, com sua voz suave e tranquila, serve bem como um apaziguador de ânimos nesse estágio pré-infernal, e as imagens dos shows sem firulas, sem muito visual, mas com potente e forte produção musical me passariam pela cabeça trazendo uma certa sensação de irônica calmaria: “Tá tudo bem, aí, gurizada? Vem comigo, me dê a mão, estamos juntos nessa e vou te mostrar que o inferno não é tão ruim quanto parece” – seria a mensagem do Metallica pra essa rápida espera.
Logo na entrada, mas já dentro do tal do Inferno, acredito que quem me receberia com um sorriso no rosto seria o Rush, cujo show é uma espécie de tour guiado pela área. Ao vivo eles mostram que, apesar do quanto o mundo vem te dizendo há anos que “aqui embaixo” tudo é do mal e faz mal, há muita beleza, magia, cores, sonoridades estranhas e belas que lá em cima, num éden divino, ninguém ouve de verdade.
“Aqui nas trevas, não é tudo bonitinho e florido, mas o diferente pode ser lindo do mesmo jeito… Escute as nuances profundas e diabólicas desse som, veja na nossa imensa tela como nem tudo é vermelho e laranjado por aqui, temos toda a palheta de cores que seus olhos podem ver, basta abri-los de verdade e sem medo para tudo que está ao redor… e me deixe te levar por um passeio histórico sobre as razões por que o inferno é considerado do mal…”. Num show do Rush me sinto como num tour num daqueles ônibus de passeio, com um guia dedicado que explica da onde veio, por que foi feito e para que serve tal monumento, praça ou estátua. Só que em vez de Londres ou Paris estamos passeando pelo Inferno!
Depois do pequeno tour, já acomodados e começando a compreender melhor essa pira toda de Inferno, na sala de estar quem toca é o Ac/Dc. Claro! Sem necessidade de qualquer explicação a respeito… trocam de vez em quando a playlist prum Rolling Stones, Led Zeppelin ou Black Sabbath de antigamente, eu acho, mas nunca estive tempo suficiente na sala de estar do inferno pra acompanhar. Curto salas de estar, mas como curioso que sou, gosto de explorar mais. Quem tá no inferno, afinal, tem mais é que dar um abraço no Capetão!
E cadê o Capetão? Bem, confesso ainda estar procurando… será que é Lemmy? Será que é Dave Grohl, só que ele só vai se revelar no fim do filme, como em Tenacious D?
Não sei, eu admito… mas a sensação de um abraço forte no Capetão é o show do Rage Against the Machine, preferencialmente com abertura do Slayer. Meu amigo, são shows FORTES. Ninguém passa por um deles sem mudar em alguma coisa, ninguém é o mesmo depois de sentir o chute na cara que são esses dois shows, o primeiro pela raiva contida que sai no ar, pela sensação de se estar botando pra fora tudo que te oprimiu e apertou em toda a sua vida… a verdadeira revolução pessoal por que um homem de Deus pode passar (“pun intended”) é sobreviver a um show completo do Rage.
Já o Slayer é algo como levar um knock-out do Anderson Silva. Você entra no ringue achando que pode com o cara. Se ficar a luta inteira meio que se esquivando, pode sobreviver e ainda aprende bastante sobre o mestre. Mas se resolver enfrentar, meu amigo, você vai cair. E quando se levantar, ainda meio zonzo, vai perceber que perdeu a luta e que não tinha a menor ideia do que era um “golpe forte”.
Se algum ser humano resistir à força cósmica combinada dessas duas potências, então já tá no colo do Capeta, eu diria… Daqui em diante, não se engane: o inferno já te acolheu, te levou com segurança por mares nunca dantes navegados de sensações e emoções, te mostrou sobre a imponência do som pesado, a sensação de estar sendo atropelado por uma locomotiva e levantar intacto, com vontade de pular, com vontade de gritar, com vontade de viver! Sim, acredite se quiser, meu companheiro judeu-cristão: a negação etimológica do Divino, quando bem aproveitada e bem conduzida, te aproxima, sem dúvida, do bem-viver, tal qual imagino seria, por exemplo, um passeio pelas nuvens do Reino dos Céus de mãos dadas com um anjinho.
Num período mais prolongado de férias no Inferno, pode apostar, você teria a oportunidade de conhecer as festas e como se divertem os habitantes fixos da área. Numa dessas, com sorte, você pegaria uma festa armena do System of a Down. Seria um festão no inferno. Todo mundo pulando, batendo o pé, se abraçando… Assim como, se por acaso aparecesse o Queens of the Stone Age, a festa seria igualmente dançante e pulante, talvez um pouco mais sensual… Como num Red Hot Chili Peppers, talvez, com suas linhas hipnóticas de baixo e desconstrução de tempo na bateria, que te tiram a habilidade de pensar racionalmente e te fazem, simplesmente, chacoalhar…
Seriam belas festas! Dizem que Ivete Sangalo faz festas bonitas e animadas, mas juro por (**insira sua preferência aqui: Deus ou Satanás**) que não chegam aos pés da alegria, sorrisos, bem-estar generalizado que RHCP, SOAD e QOTSA produzem em uma ou duas horas de festa no Inferno.
Nenhuma estada no Inferno, porém, seria completa sem uma visita ao porão ou ao sótão, soturnos e malignos que são. E o mais maligno, assustador e soturno que já vi no rock com certeza recai num show dos roqueiros do mal reunindo Machine Head, Motorhead, Sepultura, Soulfly, Ill Niño e coisas mais de visual e sonoridade mais pesadas ainda no Palco B do Inferno, e também seria lindo. Aquele monte de homem de cabelo engrunhido, bermuda baggy, muitos sem camisa… tão feinhos, mas tão felizes no Inferno, estariam curtindo demais o pancadão, algo como um baile funk do Inferno. Não tem como não curtir, também!
No Inferno também deve ter o playground, a área da criançada. Lá toca Avenged Sevenfold. Tão bonitinho aquele visual de caveirinhas aladas deles! Suuuuuper do mal, mas estilo Galinha Pintadinha. Tenho certeza de que os filhos mais novos adorariam ficar brincando lá enquanto os adultos esperam o próximo número…
E por certo que haveria espetáculo visual de qualidade também, proporcionado especialmente pelo Kiss e pelo Iron Maiden, o teatro cinematágrafico semi-épico que muda de cenário a cada música do show e te leva por um belo (porém controlado e bem ensaiado) passeio pelas guerras, monstruosidades e alegorias da história dessa humanidade que vem rejeitando há tanto tempo o Inferno.
Mais visual ainda seria o Cirque du Soleil do Inferno, capitaneado, sem dúvida, pelo fogo constante (de verdade), malabarismos, máscaras e uniformes do Slipknot, com sua cenografia perfeita e sua habilidade de fazer um show visualmente magnífico – e até assustador.
Mas digamos que o Inferno canse um pouco… afinal, depois de um tempo, até costela e picanha em excesso trazem mal-estar. Aí seria a hora de chamar o Police e o Pearl Jam, dois shows magníficos que, com uma propriedade que eu nunca vi em outras bandas, te conduzem pela mão e com todo o carinho e segurança por um pouco mais de Inferno, nos momentos mais firmes, mas já entremeando com as belas sensações e emoções do mundo lá em cima. São shows perfeitos no interagir e misturar músicas belas e cheias de emoção com o tão tradicional sonido verborrágico do Inferno, sustentado que é em sons ao mesmo tempo pesados e rápidos, mas também seguros e capitaneados por vocalistas de imenso carisma. Algo como o bombeiro que te resgata com vida da valeta em que você caiu ao dar espaço no coração pro Capetão.
Ahhh, mas como seria bom se o mundo desse mais valor à valeta, aos recônditos do subterrâneo, se nós tivéssemos mais chances de explorar por lá e de conhecer partes novas. O Inferno é quente e duro com qualquer cidadão, ele aperta, machuca e desconstrói, tal qual a foice da Morte. Ele mostra coisas que não vemos e desperta sensações que comumente reprimimos. Mas acredite: você precisa disso muito mais do que imagina. Amém.
Hildo Junior
Outro dia estava almoçando com os amigos de sempre, e falando do assunto de sempre. Fui voto vencido de que nada de realmente relevante surgiu depois da primeira metade e mais um pouco da década de noventa. Neste terceiro dia de caminhada para o trabalho, o modo shuffle do aparelhinho acabou com minha resistência.
Plush: Stone Temple Pilots, puta banda. Purple é um discaço, o segundo da banda, de 1994. Mas esta Plush é do primeiro, Core, de 1992, o ano. Plush é especial por vários motivos, mas o principal deles é que meu irmão aprendeu a tocá-la assistindo uma versão acústica da banda na MTV, e eu “aprendi” a cantá-la, e esse foi o ponto alto de muitos churrascos com nosso povo. É assim, na nossa turma música de churrasco não é Legião ou Raul. Tá bom, de vez em quando rola um Legião. Mas Raul não, nem a pau.
I´m the one: The Descendents. Melodia e trabalho de guitarra de primeira categoria, como só Stephen Egerton sabe fazer. Quando eu fazia parte do Confusion (banda de punk rock pontagrossense), tocávamos I´m the one em alguns shows. Até hoje lembro da energia que a música traz quando você a toca. Uma obra prima.
Excuse me Mr.: Foi como conheci e virei fã do Mr. Ben Harper. Amigo e inspiração de Eddie Vedder do Pearl Jam, Ben Harper é um malucão inspirado, excelente músico e guitarrista, engajado, politizado e romântico. Quase um Bob Marley com menos maconha e mais pragmático. Essa é do disco Pleasure and Pain de 1995.
Headache: depois do Pixies, Frank Black (ou Black Francis, se preferir) se lançou em uma carreira solo de altos e mais altos. O primeiro disco de 1993 já vem com Los Angeles e I heard Ramona sing, duas canções da mais alta categoria, mas é no segundo, Teenager of the Year, de 1994, que este senhor chegou ao estado da arte. O disco é gigante em todos os sentidos, com 22 músicas, todas diretas e retas e, ao mesmo tempo, criativas e empolgantes. Headache é genial. Em uma turma de experts em rock’n’roll, este disco foi uma das poucas coisas que consegui trazer como novidade até hoje.
Invincible: No Use for a Name, 1997. Com o pretexto de assistir a um congresso de engenharia biomédica em Nice, na Côte D´Azur, fiz minha primeira viagem internacional. Minha velha foi minha companheira de viagem. Uma baita companheira, diga-se de passagem. Depois da semana em Nice, passamos uma semana em Paris, para “aproveitar” a passagem. Durante os passeios pela capital, completamente alucinado com a visão da Virgin Mega Store, ignorei totalmente o roubo dos sei-lá-quantos-francos-só-sei-que-eram-muitos e comprei duas bolachinhas. Este Making Friends do No Use e o Hang Ups do Goldfinger. Ambos estão entre os “All Time Favourites”.
Rodrigo Acras
Nem sei como conheci esta banda/dupla e sei lá como definir estes caras. Só sei que tanto a proposta quanto a pegada me fizeram ir atrás dos discos. E não foi fácil. Mas como já diz o ditado “nada do que é bom vem fácil”. Valeu a pena a peregrinação virtual atrás do som e dos vídeos.
O Test é formado por João da Kombi no vocal e guitarra, nome calejado no underground que também toca/tocou no Are You God? (vale a pena ir atrás) e por Barata na bateria. Agora com as devidas apresentações feitas, não dá pra deixar de mencionar o rumo que bandas como o Test têm trazido para a cena atual, um cenário que não se constrói, mas sim se reconstrói dentro daquilo que a mídia destruiu e mentiu como sendo underground. Os caras fazem um som foda, tem moral e bagagem mas não ficam com a bunda na gelatina esperando convites para tocar, mas sim preferem levar o DIY ao lado prático. Depois da turnê europeia estão aí tocando de graça na rua em frente a um show de medalhões. A ideia é levar o rock pesado pra onde estão os roqueiros deste estilo. Como foi o caso no vídeo abaixo em frente ao show do D.R.I., no ano passado.
Para quem gosta de barulheira grindcore/metal de qualidade, somado com atitude, o Test é a bola da vez. Em tempos de músicas de mentira, criadas a partir do talento de programas de computador, nada melhor para lavar a alma do que ver uma banda de verdade onde os caras param uma Kombi na porta do Via Funchal e simplesmente descem a lenha sem dó nem piedade.
É 2012 e, piadas à parte, os White Stripes do grind caem bem a calhar como a trilha sonora do fim do mundo com o EP M` Boi Mirim. Procure por este disquinho, escute “Antes do Fim” e “Graça Gratidão” e digam se estas belas desgraceiras não são a trilha sonora perfeita para o juízo final.
Andre Ganso
Existem perguntas cuja resposta, sozinha, sem mais nada, já dá noção exata do caráter da pessoa. Evidente que há um pequeno exagero quando digo isso, afinal, qual a graça das coisas se não tiver exagero?
Mas, voltando ao assunto do dia… cuidado ao responder, pois TUDO sobre você poderá ser revelado com a sua resposta à seguinte pergunta: “Qual o seu NOFX preferido?”
Avaliemos algumas das possíveis respostas:
* “O que é NOFX?” – Meu amigo, se interne. Você não merece conviver entre os sãos!
* “De chocolate!” – Seu caráter está evidenciado: você é uma menininha fútil. Nada contra menininhas fúteis. Just saying…
* “Ih, nem curto punk rock!” – Você vai ter que procurar muito pra achar algum caráter aí.
* “Não lembro o nome… sabe aquele que tem Stickin in My Eye?” – Olha, eu vou ter paciência com você, mas cuidado: sua próxima frase pode acabar com tudo!
* “Não sei bem, sempre toco só as melhores numa playlist!” – Novamente, eu posso até te escutar, mas, brother, a coisa tá ficando feia pra você!
* “Não sei os nomes dos discos, mas gosto muito dos teclados!” – Você é um excelente candidato ao auto-extermínio. Que tal começar a tentar?
* “American Jesus” – Ok, você PRECISA praticar o auto-extermínio!
* “Eric Melvin!” – Opa! Você demonstra conhecimento suficiente para se sentar à minha mesa num bar, mas presta atenção! Não quero saber de qual seu músico preferido, né! Quero saber qual o disco de que você mais gosta! Não seja burrico!
* “Punk in Drublic!” – Parabéns, você é uma pessoa de caráter, íntegra, conhecedora de toda a filosofia existente entre o céu e o inferno. Mas respeitosamente discordo de você: o hype sobre The Brews meio que cansou.
* “White Trash, Two Heebs and a Bean!” – Parabéns, você não apenas tem caráter como te admiro enquanto pessoa roqueira. Pode sentar na minha mesa e coordenar o papo!
* “The Decline” – Nossa, como você é esquisito. Curte um som mais trabalhado, é? Ok, ok… Pode sentar na minha mesa mas não fale muito não… pessoas normais se cansariam fácil de você.
* “Coaster” – Correu procurar no google, é? Todo mundo sabe que desde o “War on Errorism” o NOFX faz bons discos, mas eles não têm mais aquela força, aquele punch dos anos 90. Considerarei seu caráter “em estágio probatório”, meu jovem!
* “Pump up the Valuum” – ahhh, você é desses que curte um visual bonitinha, uma arte trabalhada e colorida, então? Ok, respeito… despedida da Epitaph e tal, músicas inspiradas… conta mais aí sobre sua vida, mein freund!
* “The Longest Line EP” – É, você manja mesmo. Mas pode ser muito exótico pra compartilhar minha mesa. Não duvido da sua integridade, veja bem, mas a gente tá falando de NOFX, cara!
* “Ribbed” ou “Liberal Animation” – Ok, você é um manjador profissional, já entendi. Mas eu tomo banho e corto as unhas, sinto muito, a tosqueira pra mim já passou faz tempo. Old is cool, eu sei, mas Old School agora é o que era New School nos anos 90, meu! A fila anda!
* “So Long and Thanks for All the Shoes” – Oi! Você é eu! Amo você, cara! =)
* qualquer outra resposta: desculpe, mas ou você também começa a pensar em auto-extermínio ou pára tudo e dedica mais tempo da sua vida a NOFX. Nunca fui mais sério! Corre lá… agora!
Hildo Júnior
Fone de Ouvido é música para se ouvir com os olhos. Como isso é biologicamente impossível, é apenas um blog de amigos falando sobre uma espécie aparentemente em extinção: os discos. Ah, e shows, cultura inútil e outras cositas mas.