Rock In Rio

In: Metal|Metallica|Rock In Rio

27 Sep 2011

Virou moda falar mal do Rock In Rio. Desde a divulgação das atrações, a moçada desceu a lenha no festival, sem dó. Concordo que tem muita porcaria, mas o Rock In Rio nunca foi somente um festival de rock. Desde a primeira edição, o pop e a MPB sempre marcaram forte presença no cast, com Go-Go’s, Debbie Gibson (alguém aí lembra dela?), B-52s, New Kids On The Block, Britney Spears, N-SYNC, Daniela Mercury, Elba Ramalho, Sandy & Junior e muitos outros. Portanto, não sejamos tão literais, né?

Outro motivo deste enorme backlash é que o brasileiro está ficando muito blasé. Shows internacionais acontecem aos montes, todos os meses, todo mundo está vindo pra cá. Além disso, agora o Rock In Rio também tem concorrência pesada, com o SWU, o Planeta Terra e o Lolapalooza competindo pela agenda dos artistas. Aí fica bem mais difícil, pra não dizer impossível, ter o mesmo impacto que o festival tinha antigamente.

Mas o que pega mesmo é que o pessoal adora reclamar por reclamar. Se todo “rockeiro” que falou mal do Rock In Rio estivesse realmente acompanhando o rock no dia-a-dia, várias bandas nacionais e internacionais não estariam tocando para apenas 50 pessoas, como tem acontecido por aí. Como o nosso amigo Ganso escreveu no post anterior, pra essa galera, o rock é o assunto da semana. Resta saber qual será o da semana que vem. Como provam os trending topics do Twitter brasileiro, aposto que será alguma coisa que estará passando na TV, mais especificamente na Rede Globo.

Pra finalizar esse assunto, o que eu acho que realmente faltou na escalação desta edição do Rock In Rio foi um grande nome do Classic Rock, como Queen e Yes na primeira edição, Joe Cocker e Santana na segunda e Neil Young na terceira. Um The Who, Bob Dylan ou David Gilmour, por exemplo, seriam perfeitos, mas as coisas não são tão simples assim. São artistas que nem precisam mais cair na estrada, logo não é fácil chegar a um acerto com esse povo. Outro erro do festival foi não correr atrás de nomes mais representativos do indie rock, como um Artic Monkeys ou um Wilco, que certamente dariam um ar mais contemporâneo e “relevante” para o festival. Relevante assim mesmo, entre aspas, porque relevância é sempre relativa, algo que varia de pessoa pra pessoa.

Particularmente, já sabia que iria ao Rock In Rio desde a escalação da primeira banda do cast, ainda no ano passado. Enquanto tiver pernas pra ficar muitas horas em pé e paciência para aguentar os perrengues de todo grande show, farei questão de nunca perder um show do Metallica. Já na saída para o festival, a primeira boa impressão: o esquema de ônibus especiais funcionou com perfeição, sem atraso, sem filas e, por ser domingo, também sem trânsito. E na volta também, tudo muito rápido e com grande conforto. Outros pontos altos: a variedade de atrações da Rock Street, a tirolesa tripla que passava na frente do Palco Mundo, banheiros sem filas e a excelente qualidade do som em todos os shows, com destaque para duas linhas em arcos com diversas torres de atraso para quem estava acompanhando os shows mais no fundão. Pontos fracos: muita demora e desorganização nas filas de alimentação e a pouca quantidade de lixeiras no local. Somando isso com a tradicional falta de educação do brasileiro, o resultado era um empurra-empurra danado pra sair com um mísero lanche nas mãos e um chão absolutamente abarrotado de copos, papéis, cigarros, chicletes e outras imundices.

Saí para o evento apenas às 5 da tarde e cheguei em tempo de ver a primeira banda que realmente me interessava: o Sepultura. Show que começou com um atraso considerável por problemas técnicos, algo que aconteceu com todas as apresentações do palco Sunset. Mas a espera valeu a pena. A participação dos franceses do Tambours De Bronx transformou o show em um espetáculo único. Os 20 e tanto percusionistas posicionados à frente da bateria, tocando junto com a banda em todas as músicas, deram uma dose extra de peso às músicas. Mas não foi só isso: o impacto visual também foi sensacional, parecendo um show da Broadway, quase como um Stomp/Blue Man Group do metal. Corajosa, a banda não recorreu apenas aos seus clássicos, tocando várias músicas do disco novo, um cover do Prodigy e outro dos próprios Tambours Du Bronx. O final foi apoteótico, com Territory e Roots Bloody Roots, essa última contando com a participação mais do que especial de Mike Patton. Demais!

Muita gente questionou porquê o Sepultura tocou no palco Sunset ao invés do palco Mundo, mas na real, todo mundo sabe o motivo. O Glória é cria do Rick Bonadio e por isso estava no palco principal. Se fosse por “justiça”, o Sepultura deveria ter tocado entre o Coheed e o Motorhead, mas um festival deste porte movimenta muito dinheiro e, principalmente, interesses. Quem pode mais, chora menos. Caminhando para assistir ao Sepultura no Sunset, vi o Glória tocando dois covers do Pantera no palco Mundo. Pelo menos deu pra ver que os meninos sabiam pra quem estavam tocando. Não vou emitir nenhuma opinião adicional sobre eles, afinal, não vi o show e não conheço o trabalho da banda.

Depois do Sepultura, uma longa caminhada até o Palco Mundo, onde o Coheed And Cambria já estava tocando “Ten Speed (Of God´s Blood And Burial)”, minha música favorita deles. Achei um bom lugar perto da tirolesa e conferi um excelente show desta banda que é meio ignorada no Brasil, especialmente porque é muito difícil classificar o seu som – eles não se encaixam direito em nenhuma das tribos do rock. A mistura de metal e progressivo com pitadas de energia do punk passou batida para o público do festival, que só reagiu mesmo no tradicional cover de The Trooper, do Iron Maiden, que o Coheed toca há vários anos. A partir daí, com o público na mão, a banda terminou o show com as ótimas The Crowing e Welcome Home, deixando uma ótima impressão. Espero vê-los novamente no Brasil um dia, mas num lugar menor. Grande banda!

Em seguida, tivemos o Motorhead. O show foi rigorosamente igual ao de Curitiba em abril, apenas um pouco mais curto. Abriram com Iron First e Stay Clean, fecharam com Ace Of Spades e Overkill, essa última com o reforço de Andreas Kisser na guitarra. Continuo achando que os caras deviam mudar um pouco o setlist e incluir mais clássicos dos anos 80, especialmente para um festival como o Rock In Rio. Imagina o que seria uma Orgasmatron ou Bomber num show como este. De qualquer forma, foi mais uma demonstração de classe e de toda a experiência da banda, que não deixou a peteca cair nem mesmo quando o baixo do Lemmy parou de funcionar. Ao perceber o problema, no meio de uma música, a banda simplesmente continuou tocando, improvisando, dando uma aula de rock’n’roll.

Em seguida, o Slipknot mostrou porque já é headliner dos grandes festivais europeus e, hoje em dia, só abre shows de duas bandas no circuito musical: Metallica e Iron Maiden. É que ninguém mais conseguiria subir num palco depois deles. Os caras não são mais somente a grande banda de metal do futuro, eles são o presente. O show dos caras tem tudo: as canções, o visual, a performance, a pirotecnia. Comunicando-se como James Hetfield (“are you alive tonight?”) e portando-se como Bruce Dickinson (pé no retorno, controle total do público), Corey Taylor se transformou num frontman perfeito. Atrás, a banda comandada pelo batera Joey Jordison dá uma aula de peso, precisão técnica e carisma, fazendo de um simples show um grande evento. Ver e ouvir 100 mil pessoas cantando o refrão de “Duality” e pulando juntas em “Spit It Out“ foi uma experiência inesquecível. E olha que nem sou assim um grande fã do som da banda. Consagrador.

Depois do Slipknot, até pensei em como o Metallica iria se virar para conseguir superá-los. Mas mestres são sempre mestres e logo de cara, soltaram uma sequência de 4 músicas de Ride The Lightning, com a ótima Fuel entre elas. Pronto, o jogo já estava ganho. Exceto o bis, o Metallica tocou exatamente o mesmo setlist executado no show de Nova Iorque da tour do Big 4 – um repertório perfeito. Pra mim, o momento mais especial foi Orion, a longa e inspirada instrumental de Master Of Puppets, tocada em homenagem a Cliff Burton, baixista falecido em um acidente com o tourbus da banda há exatos 25 anos atrás. Executada com perfeição, foi uma das melhores experiências musicais de toda a minha vida como espectador de shows de rock. Depois disso foi hit atrás de hit, um best-of de uma das melhores bandas de todos os tempos, mais uma vitória na longa lista de conquistas do Metallica.

Resumindo tudo, um dia cansativo mas divertido e cheio de ótimos shows, como um bom festival deve ser. E enquanto o Rock In Rio tiver o tal do Dia do Metal, podem ficar tranquilos porque o rock sempre vai marcar presença no festival.

Fabian Oliveira

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