Ghost – Infestissumam

In: Hard Rock|Rock In Rio|Suécia

16 Apr 2013

Impossível resistir à tentação de comentar sobre o segundo album dos suecos mascarados e (por enquanto) anônimos do Ghost.

Tem sido há um bom tempo a banda que mais ouço e não tenho nenhuma vergonha de revelar que caí na magia hipnótica do som ao mesmo tempo antiquado e super moderno que Papa Emeritus II e os Nameless Ghouls fazem. Sim, esses são os integrantes, um vocalista com habilidades fora da curva em termos de harmonia e suavidade no tom… e quatro instrumentistas (guitarra, baixo, bateria e teclados Moog/Hamond) sem nome, simplesmente alcunhados de Nameless Ghouls.

É preciso ressaltar que tanto o tema satânico constante quanto o visual assustador, aterrorizador de “priests of death” do Ghost podem se revelar traumatizantes para o incauto. Todas as letras do primeiro e agora deste segundo disco também passeiam por rituais, vocativos e celebração de Satã, de discípulos de Belzebu ou de seguidores de algum tipo de seita de Lúcifer.

A referência, apesar de pontualmente crítica e provocativa da tradição judaico-cristã, na verdade não resiste a uma análise racional mais profunda (não resiste como sendo assim tão terrivelmente maligna, quero dizer!). É que não existe chamado ao mau ou ao malfazer, não se trata de uma reunião com más intenções, na verdade. Podem respirar, brasileiros de fé. Nenhuma ofensa ou negação direta aos deuses instituídos aparece na obra do Ghost.

Na verdade, a questão toda gira em torno do que nos anos 60 se chamava “Igreja de Satã”, uma corrente na verdade FILOSÓFICA que sugeria retirar o sobrenatural do centro do mundo e das ações humanas, para recolocar o materialismo e o existencialismo de pensadores como Sartre e Ockham na base da filosofia humanista, principalmente em relação à repressão sexual e ao sentimento de culpa cristão tradicional.

O satanismo do Ghost, assim, não prega o culto a Satã como o demônio descrito pelas religiões monoteístas, mas sim por seu significado e simbolismo práticos, num mundo moderno acossado de ações humanas e acuado por temores nem sempre tendentes a elevar a condição dessas ações, mas, as vezes, com o único intuito de assegurar a prevalência religiosa de um ou outro grupo – por meio do pecado e do “não-poder”. A palavra Satã significa, em sua origem, “adversário” e foi adotada pelos satanistas como meio de representar a oposição aos dogmas cristãos estabelecidos. Apenas isso.

Na artes, então, sobreveio este momento em que temos uma banda maravilhosa, que vestiu a carapuça de debater por algum meio sobre a validade, realidade e repercussões dos dogmas cristãos estabelecidos, utilizando para isso de termos/palavras, vestes e da teatralidade menos usuais que vemos por aí, e vem aparecendo bastante não só por todo esse clamor visual e provocativo, mas, sobretudo, porque faz uma sonzeira digna de qualquer anjo, caído ou levantado.

E aqui chegamos ao que mais importa no Ghost: um som inédito, ainda que sem deixar de prestar reverência às bases mais interessantes do Heavy Metal, Black Metal e principalmente Classic Rock. Em Infestissumam, que quer dizer “hostil” em latim, temos elementos variados de Deep Purple, King Diamond e Blue Oyster Cult, entre outras clássicas dos anos pré-yuppies, bem compassados com harmonias vocais que os Beatles poderiam ter feito na sua fase mais psicodélica.

O som é setentista e progressivo mas não soa ultrapassado, ao contrário, parece imensamente atual, inclusive invocando muitos sons que hoje estouram e vendem muito, como o Metallica e o Iron Maiden (Steve Harris poderia ter criado “Idolatrine” em seu baixo e tocado primeiro com Bruce Dickinson no comando, por que não?).

“Year Zero” tem um video realmente magnífico rolando na internet/youtube e não é para menos o conjunto de referências que ali se vê. Desde a menção a LaVey e à Igreja de Satã, até a libertação dos dogmas religiosos (em prol do “bem”, que ali é simbolizado pelo ROCK’N'ROLL) que parece ser a pregação por trás dos temas teatrais e de aparente descrição fantasiosa em tantas faixas.

O disco todo é uma obra-prima. Tem levado notas altíssimas em quase todos os reviews sérios que são feitos, e não poderia ser diferente. Se é uma onda apenas esse lance todo de reviver o satanismo e cultuar o lado escuro do homem, e é verdade que muitos já o fizeram antes, é totalmente novo, porém, o modo como o Ghost agora o executa: é bonito, é suave, é agradável aos ouvidos na voz que ouvimos em Infestissumam, é intrigante pela habilidade dos instrumentos, é chamativo pelas melodias as vezes simples, as vezes técnicas, mas sempre direto e no ponto como Paul McCartney e Dave Grohl sabem muito fazer. São músicas boas do início ao fim, são hits instantâneos com refrões grudentos e riffs que permanecem em sua mente horas depois de ouvir o disco.

Com uma palheta sonora intensa e ampliada pelos órgãos Moog que parece só serem tocados hoje em dia na Suécia mesmo (e deve ser assim desde o Abba e o A-Ha naquelas terras), passando da melancolia épica / surf music de “Ghuleh/Zombie Queen” até o rockão quebra-tudo festa de arromba dos anos 70 de “Monstrance Clock”, o disco nos dá agradáveis mudanças de ambientação e um prazer intenso na audição que vai do primeiro ao último acorde.

E não se preocupe, você que já tinha se animado com o primeiro disco, “Opus Eponymous”, pois os mesmos traços que apareceram no debut estão aqui de novo, das palhetadas e riffs doom/pegajosos com pouca compressão e aquele ar de igreja, até o som soturno e crescente do hard rock tipicamente setentista e, por que não dizer, dançante. Só que agora ainda passeiam por referências mais dinâmicas ainda, como Beach Boys e (mais) Black Sabbath.

Muito ainda poderia ser dito sobre esse disco curto e quase impossível de só se ouvir uma vez. Ele realmente é isso tudo, um sopro de novel arte no que parece ser o afunilamento do rock pesado que vínhamos vivendo poucos anos atrás, quando Avenged Sevenfold, com toda a sua limitação inenarrável, passou a ser um dos “grandes exemplos” do rock pesado obscuro “do Capeta” só por suas caveirinhas aladas no telão. “Infestissumam” seta um marco que assegura ao Ghost uma história, embora curta, já bastante tendente a fazer algo de realmente novo surgir e se estabelecer, uma sonoridade e um conjunto visual/teatral que preenchem um espaço outrora relegado às trevas.

Em suma, trata-se de um album que transita pela arte sem responsabilidade e de diversão semi-descartável que preenche todas as prateleiras de artistas que vendem muito por aí (oi, Gangnam Style?), o que chama à atenção e agrada de plano, enquanto firma o pé com essa sequencia de trabalho no mesmo tema, reforçando o apelo todo, de forma a realmente atrair uma possível horda de seguidores e fãs que, como já se viu em exemplos como os do punkrock dos anos 90 (Green Day, Offspring), podem realmente alçar a banda e este “novo velho estilo” a patamares bem maiores. Qualidade tem, basta esperar pra ver se e como se recebe a adoração de Lucifer na atual república de evangélicos e católicos que é o Mundo Ocidental (fora da Suécia e dos países nórdicos). O furor que a banda vem causando, por hora, indica que a invasão nostálgica pode continuar e, enquanto for o caso, independente de qualquer outra coisa, é uma onda imensamente divertida.

Hildo Junior

Facebook Twitter del.icio.us Google StumbleUpon

5 Responses para Ghost – Infestissumam

Avatar

Felipe Sanchez

April 16th, 2013 as 1:50 PM

Que maravilha Hildo! O sentimento é o mesmo por aqui. Posso afirmar ser a banda que mais ouvi de Abril/2012 a Abril/2013. Levando em conta serem apenas 2 discos, cada um já deve ter rodado perto de 200x nos meus ouvidos! E não me canso! Vida longa a esses caras. Já perdi até a curiosidade de saber quem são. Deixa como está pois em time que está ganhando não se mexe!

Avatar

Joel Kesher

April 16th, 2013 as 10:06 PM

Concordo em grande parte com sua análise do novo álbum do Ghost. Acho que não temos aqui a crueza do primeiro álbum, mas não acho que isso seja ruim. Mas queria saber sua opinião sobre uma comparação – injusta, eu acho – entre Ghost e Witchcraft.
tirando a teatralidade, acha que existe mais alguma grande diferença?

Avatar

Harry Portela

April 16th, 2013 as 11:46 PM

Sensacional, eu realmente estou viciado em Ghost, os caras são foda, excelentes músicos, arranjos perfeito, som simples mas marcante, isso mostra q não precisa muito quando realmente se quer, basta fazer bem feito e ter fé, no caso deles em Satã, kkkk que seja, do jeito q ta bom.

Avatar

Fabian

April 19th, 2013 as 3:33 AM

Como falou o Joel, senti falta da crueza do primeiro disco na primeira audição, mas agora a ficha tá caindo que é um grande disco. Tem umas melodias que chegam até a ser meio ABBA, eu achei. Não estão com medo de ousar, nem de fazer sucesso, estão pendendo pra um som mais acessível com letras satanistas – divertido demais ver isso. Aliás, neste ponto, o Ghost é extremamente metal: tratam de um tema meio tabú na sociedade com grande senso de humor, abusam da teatralidade e foram buscar lá nos primórdios do estilo uma sonoridade que passeia, é claro, pelo Sabbath, mas também pelo Uriah Heep, Blue Oyster Cult, alguma psicodelia. Nada que não tenha sido feito de forma ou outra no passado, mas numa combinação, enfim, inédita. Kudos para o Ghost e logo os veremos aqui nas Araucárias.

Avatar

Hildo

April 22nd, 2013 as 6:40 PM

Joel, não acho que seja caso de “comparar” Ghost com Withcraft, mas sim de reconhecer alguns elementos similares em ambos, como a ambientação dos temas e a construção de harmonias em torno de riffs e subidas para refrão.
Mas um pesca no pop (Ghost) e outro pesca no Heavy Metal (Withcraft), um tem uma pegada mais setentista Classic Rock e outro uma pegada setentista Sabbath mesmo.
Talvez a grande diferença entre as bandas, alem da parte visual acurada, seja a postura de uma releitura de bandas do passado mais modernizadas (Ghost) ou mais “como eram antes” (Withcraft), sem trazer para o presente.
Mas não tinha pensado nessa comparação até vc me chamar à atenção.
Bem pensado! Boa!
o/

Comentários

Sobre o Fone

Fone de Ouvido é música para se ouvir com os olhos. Como isso é biologicamente impossível, é apenas um blog de amigos falando sobre uma espécie aparentemente em extinção: os discos. Ah, e shows, cultura inútil e outras cositas mas.

Arquivo

Categorias

Arquivos

  • Fabian: Podemos tentar, mas na média dos votos a mediocridade está imperando. O povo não sabe votar MESMO [...]
  • Hildo: E se a gente tentasse o "voto útil"? Pelo que vejo em Buenos Aires o set contemplará somente os m [...]
  • Hildo: Amém! [...]
  • andre ganso: tem um cara que fazia bons discos natalinos - elvis! e um certo confusion uma vez mandou um cover [...]
  • PVFP: Viva a sociedade alternativa como dizia Raul que que permite o desdobramento infinito das possibilid [...]